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Denilson Lopes e seus Afetos

Luiz Carlos Merten

04 Fevereiro 2018 | 12h45

Preciso voltar logo a trabalhar, e sair de casa. Dib Carneiro diz que não gosto da minha casa. Não é verdade, ou talvez seja só em parte. Mas não nasci para o confinamento. Gosto de estar no mundo, na rua. Ao voltar de Tiradentes, já com dor no joelho, fui ao Centro e refiz alguns dos caminhos das personagens do longa de Helena Ignez, A Garota do Calendário. No filme, me pareceram ainda mais decadentes e sórdidos que são. É curioso, mas gostei menos da Garota que de outros filmes de Helena quando o vi em Tiradentes, mas ele ficou comigo e volta e meia me pego a pensar naquele universo e sobre como dialoga com o de Tico em Madrigal para Um Poeta Vivo, por exemplo. Tudo isso é só um prólogo para chegar ao assunto do blog, que é o livro de Denilson Lopes na Coleção Pensamento Político-Social, da Hucitec Editora. Conheço Denilson há anos. Fomos jurados juntos – na Aurora – e, desde então, nos reencontramos, quase sempre, em Minas. O livro chama-se Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos. Na orelha de dentro, encontrei a bibliografia de Denilson, que é muito mais extensa que pensava – aliás, não pensava. Apesar desses contatos ocasionais – Dib Carneiro e ele compartilham o amor por Lúcio Cardoso e pelo teatro -, não sabia que Denilson havia publicado tanta coisa. Conto aqui, quantos?, oito livros com o Afetos. Li e reli no volume, com imenso prazer, sua Carta a Leonardo Mouramateus e os textos sobre Transeunte (O homem que caminha sem chegar), Estrada para Ythaca, mas não é só sobre esse filme mítico para mim (O alumbramento e o fracasso) e Madame Satã (O retorno do artifício), que me deixaram em êxtase. Invejoso no bom sentido. Quero agradecer publicamente ao Denilson pelo afeto desses ensaios. Talvez isso se deva ao fato de ele estar escrevendo sobre filmes selecionados, de que gosta, eu também gosto, mas o afeto extrapola as obras. Jantei no outro dia com pessoas conhecidas, algumas de que gosto muito. Estava com dor, mas não foi só isso que me deprimiu. Quando o assunto caía nos filmes, os comentários eram os mais blasés possíveis. Um não gostei por não gostar. Tédio, aborrecimento. Pode parecer provocação, mas recomendo a todos, e a eles, em especial, o livro do Denilson.