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Luiz Carlos Merten

02 Agosto 2010 | 08h53

Adoraria ter visto o maestro Kurt Masur regendo Brahms à frente da Orquestra Sinfônicas Brasileira, no Rio, mas no sábado à tarde Dib Carneiro e eu fomos vê-lo reger um programa especial, em parceria com o filho, o masestro Ken David Masur. João Luiz Sampaio tem muito mais ferramentas que eu para avaliar a arte do velho maestro, último representante de uma linhagem muito especial. Mas quero dizer que tive ali uma das grandes emoções da minha vida. Nunca vi um maestro como Kurt Masur. Seu estilo de regência é pessoal, a maneira como o velhinho de 83 anos, prescindindo da batuta,  usa a linguasgem das mãos e do corpo para se comunicar com os músicos. No intervalo, o diretor artístico de Municipal veio até a boca de cena para nos transmitir, a nós o público, algumas palavras de Masur pai. No começo dos anos 1970, ele veio ao Rio reger Brahms, conheceu uma violonista da OSB, Tomoko. Apaixonaram-se, casaram-se e tiveram esse filho, Ken David. O cara é performático, de uma elegência impecável. Mas ele ainda tem caminho, não sei se longo, a percorrer até virar gênio como o pai (se conseguir). O programa, compreensivelmente, foi dedicado ao amor. ‘Romeu e Julieta’, versões de Tchaikovski e Prokofieff na primeira parte, excertos sinfônicos de Leonard Bernstein (‘West Side Story’) e Gershwin (‘Porgy and Bess’) na segunda. No final, o maestro concedeu um bis e prestou uma belíssima homenagem à mulher. Tomoko chorou quando entrarasm, imponentes, os acordes da ‘Marcha Nupcial’ de Mendelhson. Para mim, pelo menos, o concerto foi muito cinematográfico. Não consegui entrar no clima do Tchaikovski despudoradamente romântico de ‘Romeu e Julieta’ sem me lembrar do filme de Ken Russell, ‘Delírio de Amor’, The Music Lovers no original. Já falei aqui no blog do enfant terrible do cinema inglês dos anos 1970 e 80. Mais até do que suas adaptações de D.H. Lawrence (‘Mulheres Apaixonadas’) e Huxley (‘Os Demônios’), Russell deve sua reputação de barroco extravagante e rebuscado às biografias de grandes compositores (Tchaikovski, Mahler, Liszt). Leonard Maltin não tem muito apreço por ‘Delírio de Amor’. Diz que é overacted e over directed. O ‘over’, no caso, é a essência do estilo de Russell. Ele usa a música de Tcxhaikovski para criar um clima de sonho que entra em choque com a realidade. Quando e como isso ocorre, é a própria vida do compositor que entra em colapso. Homossexual reprimido, eloe se casa com Nina e a abandona. Ela enlouquece, vai parar nmum instituto psiquiátrico misto, onde se entrega aos homens como se fossem os compositores rivais do marido. Richard Chamberlain é Tchaikovski e o próprio ator demorou para sair do armário. Glenda Jackson é Nina. Achei o ‘Romeu e Julieta’ de Prokofieff muito triste, muito bonito, mas foi a segunda parte do concerto que me fez viajar as lembranças. Não sou particularmente adepto de musicais, mas coreografias de ‘Amor, Sublime Amor’ são enérgicas demais para que, ouvindo a música, eu não me lembrasse dos movimentos de George Chakhiris, Riuta Moreno e Russ Tamblyn. ‘Porgy e Bess’ virou filme de Preminger, na sua fase Dorothy Dandridge, de quem o grande diretor foi amante. Mas se Otto enfrentava o racismo e as instituições na tela – nos filmes -, na vida nunca foi capaz de assumir o romance, o que precipitou a decadência da negra mais bela e sensual da história de Hollywood (Halle Berry incluída). Andre Previn e Ken Darby ganharam Oscars de arranjo e a trilha de Gershwin (‘Summertime’, ‘It Aint Necesserly so’ etc) é magnífica, mas é a própria mise-en-scène de Preminger que faz de ‘Porgy e Bess’ um cult, defendido com paixão por ‘Cahiers du Cinéma’ na fase de capa amarela. Finalmente, a ‘Marcha Nupcial’. Curiosamente, não me lembrei de Erich Von Stroheim. Minha ponte foi com George Stevens. Rock Hudson e Elizabeth Taylor estão brigados em ‘Assim Caminha a Humanidade’. Vão a este outro cxasamento e é ali, quando os noivos formulam seus votos, que eles se casam para valer. Não era o que Kurt Masur estava querendo fazer? Quando ele chamou o filho e Ken David assumiu a regência, entregue pelo pai, o Teatro Municipal virou palco de um rito de passagem. Mas eu espero que Kurt Masur siga a trilha de Manoel de Oliveira e chegue aos 100 anos regendo. Nem falei nada do próprio Municipal, que não havia visitado após a restauração. Faltam-me palavras. Meu sábado foi inesquecível, no Rio.