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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2006 | 13h25

Espero não ser tachado de ignorante, mas acho a lista de vencedores do Nobel de Literatura pior do que a do Oscar. A gente até se lembra dos vencedores antigos, mas dos recentes? Bom, para me desdizer, no ano passado ganhou o Harold Pinter. Ele, o Dario Fo, o Naipaul, Gunther Grass são um pouco exceções. Borges e Graham Greene queriam, mas nunca ganharam o Nobel. Mereciam mais que toda essa gente. Saramago ganhou. Acho o cara ilegível. Os depoimentos dele em Janela da Alma (sobre a cegueira) e A Vida É Um Sopro (sobre Niemeyer) são geniais e eu sempre me pergunto como um cara tão rico, do ponto de vista da expressão oral, consegue escrever daquele jeito? Não me fascina, de jeito nenhum. Nunca consegui ler um livro dele inteiro. Começo, paro no meio, avanço umas páginas (às vezes muitas páginas) e vou até o fim, senão não ia. Tudo isso é para comentar o Nobel ‘político’ para Orhan Pamek. Não o Nobel, propriamente dito, mas a cultura turca. Passou este ano em Cannes um filme turco que você vai ver na Mostra. Climates, de Nuri Bilge Ceylan. Antes de falar nele, gostaria de lembrar que a Turquia, um país aparentemente sem tradição cinematográfica, já emplacou uma Palma de Ouro – Yol, de Yalmaz Gumey, que dividiu com Missing, do Costa-Gavras, o prêmio em 1982. Gostei do filme do Bilge Ceylan. Não sei se gostei mesmo ou se tive só um estranhamento, mas a história daquele casal me tocou. Um homem, uma mulher. Ele é professor, pesquisador, ela é atriz, ambos pertencentes a meios sofisticados. O sexo é um empecilho, violento, uma arma que ele usa para tentar dominá-la. Quando terminam, o herói a segue no fim do mundo, onde ela está filmando. O filme é duro. Fala de homens e mulheres de um jeito que não se refere só à sociedade turca. Há algo, vago, de Bergman e de Antonioni, um sueco e um italiano, ou seja, produtos de sociedades bem distintas. As cenas de casamento de Bile Ceylan são convulsivas como as de Bergman, a incomunicabilidade do casal é como em Antonioni. Mas os coleguinhas brasileiros não gostaram muito de Climates em Cannes. Embora o relato não tenha nada de autobiográfico, o diretor interpreta o protagonista. Ele atua, escreve, dirige. Fica uma coisa narcisista, aquele cara dando uma de poderoso, na cama. Mas Bilge Ceylan tem capacidade de observação. Ele sabe que, nas brigas entre casais, a tensão acumulada termina explodindo nas menores coisas. Chega o ponto de saturação em que basta um gesto, uma palavra, às vezes coisas sem importância, para que o mundo venha abaixo. Em geral, já tinha vindo antes, as pessoas é que se recusavam a entender (ou aceitar). Climates é sobre isso.