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Luiz Carlos Merten

01 Maio 2010 | 10h25

RECIFE – Cá estou eu depois de uma noite que foi desgastante, confesso, menos por prazeres, mas por desperdício emocional. Emendei ‘O Homem de Ferro 2’ com o novo Jorge Durán, ‘Não Se Vive sem Amor’, que encerrou, ontem, a mostra competitiva do 14º Cine PE. Hoje à noite, teremos a exibição, fora de concurso, de ‘Quincas Berro d’Água’, que Sérgio Machado adaptou do romance de Jorge Amado, e amanhã, após a premiação, de ‘Continuação’, documentário de Rodrigo Pinto sobre o cantor e compositor Lenine. Espero que tenhamos um bom fim de festival, mas a competição foi decepcionante, o que nem pode ser creditado aos erros da seleção. Afinal, tínhamos grandes nomes e havia muita expectativa justamente pelo filme de ontem, de Durán, já que o cineasta, num certo sentido, pode ser considerado o nosso Terrence Malick, pelo longo tempo que se passa entre seus projetos. No caso de ‘É Proibido Proibir’, foram 20 anos em reação a ‘A Cor do Seu Destino’, mas valeu a espera. ‘Não Se Pode Viver sem Amor’ foi feito rapidamente, nos termos de Durán, apenas quatro anos depois de seu segundo longa, e talvez ele devesse ter esperado mais, para decantar melhor o projeto. Longe de mim sugerir que Durán não faça todos os filmes que têm vontade, e no ritmo dele, mas na verdade estou tentando entender o que é, para mim, o fracasso de seu novo filme. ‘Não Se Vive Sem Amor’ tinha outro título, anteriormente, ‘Gabriel à Sombra do Edifício’. O filme reúne elementos de realismo fantástico, sobre esse menino que aciona o vento, a chuva, o fogo e ressuscita os mortos, mas o problema nem é esse. A história e os personagens ficam dando voltas, o roteiro é um labirinto entravado – como?, se Durán é roteirista experiente, tendo trabalhado com diretores como Hector Babenco -, a fotografia é lavada e, volto agora ao menino, o guri é uma peste, no sentido de que não tem carisma, não cria empatia. Não quero ser ofensivo com o garoto, que, afinal, não tem culpa, mas foi uma escolha desastrada, como a daquele tal de Carmona que arrasou o ‘Paixão Perdida’ de Walter Hugo Khouri. Após o jantar, conversei ontem um pouco com Luiz Zanin Oricchio e Maria do Rosário Caetano. Essa coisa de dirigir crianças não é mole. Crianças e cachorros roubam as cenas de atores experientes, mas quando a criança é ruim ninguém segura. Daniel Filho, em ‘Chico Xavier’, e Fábio Barreto, o pequeno Lula,  souberam escolher muito) bem, independentemente de as pessoas gostarem dos filmes deles (ou não), mas seria injusto atribuir todos os problemas de ‘Não Se Pode Viver Sem Amor’ ao ator mirim. A sucessão de erros começa no roteiro, prossegue na mise-en-scène. Talvez seja injusto com Durán, que merece respeito, mas o filme dele, pela expectativa que gerava, foi, para mim, a maior decepção do Cine PE.  Isso, por outro lado, pode facilitar a tarefa do júri. Não há muito o que escolher. Para mim, é uma escolha simples, de um filme só, embora ‘As Melhores Coisas do Mundo’, de Laís Bodanzky, já tenha estreado em outras praças – mas isso não deve ser levado em consideração. Confesso que vou ficar decepcionado se Paloma Duarte não emplacar o Calunga de atriz, por ‘Léo e Bia’, de Oswaldo Montenegro. Como júri é uma caixinha de surpresas, pior que jogo de futebol, nunca se sabe o que vai dar amanhã à noite. O negócio é esperar. Patienter, como dizem os franceses. Ah, sim, gostei do curta gaúcho ‘Amigos Bizarros do Ricardinho’, de Augusto Canani, e não por ser, como euy, do Rio Grande. O filme levantou a plateia do Recife e o diretor, que chergou atrasado, teve direito a subir ao palco do Cine-Teatro Guararapes, após a ovação no fim da projeção, para nova explosão da galera. Augusto Canani, que eu nem sei quem é, é talentoso. E deve ter lavado a alma com aquela sensação calorosa de ‘bem-amado’.