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Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2007 | 14h25

Se a Deborah Kerr/que o Gregory Peck – como esquecer o verso de ‘Flagra’, de Rita Lee? Como esquecer agora que Deborah Kerr morreu? Tive hoje uma manhã complicada, mas não estou me queixando. Adoro quando tenho de correr contra o tempo. Tinha todas as matérias que vocês poderão ler na edição de amanhã do ‘Caderno 2’ e ainda tive de parar por duas horas, para um encontro com os focas do curso de jornalismo do ‘Estado’. Todo ano tenho tinho esses encontros. Adoro. Voltei à redação já atrasado para fazer os filmes na TV e me cai a notícia da morte da Deborah Kerr. Pára tudo! Não sei se o leitor jovem, lendo hoje que morreu anteontem aquela senhora de 86 anos, que há muito tempo sofria do Mal de Parkinson (e ele foi se agravando), pode avaliar o impacto da notícia sobre quem era jovem nos anos 50 e 60. Deborah Kerr foi, naquela época, um ícone comparável ao Marlon Brando que cavalgava na moto de ‘O Selvagem’ ou a Marilyn Monroe que o vento do metrô deixava com a calcinha à mostra em ‘O Pecado Mora ao Lado’. Só que Deborah encarnava, perdoem-me pela palavra, a normalidade em Hollywood e a imagem dela que correu mundo foi a da esposa adúltera rolando na areia da praia com o amante (Burt Lancaster) em ‘A Um Passo da Eternidade’, em 1953. Só bem mais tarde assisti ao filme e soube o que representara a decisão do diretor Fred Zinnemann de desafiar o Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência em Hollywood. Rezava a traição que mesmo marido e mulher dormissem em camas separadas. A cena não só era tórrida, para os padrões da época, como o casal ainda era adúltero! Deborah Kerr nasceu em 1921 e estreou no cinema, aos 20 anos, em ‘Major Bárbara’. Nunca vi o filme, mas fantasio achando que devia fazer o papel que Barbara Paz criou na bela montagem do Grupo Tapa, em São Paulo. Dez anos mais tarde, a inglesa classuda já estava reinando em Hollywood, com filmes como ‘As Minas do Rei Salomão’ e ‘Quo Vadis?’ Os que vieram depois foram melhores e esculpiram essa imagem de Deborah Kerr como mulher capaz de encarnar (e expressar), na tela, os vários sentimentos da mulher em relação ao amor e ao sexo. Ela não era Marilyn Monroe, um objeto de desejo. Era uma mulher como as outras, bonita mas não muito, sexy mas não muito, que tinha desejo e não se envergonhava dele (nem tentava reprimi-lo, embora algumas de suas personagens o fizessem). Deborah Kerr foi adúltera e freira. Trabalhou com grandes diretores, em grandes filmes. Os meus preferidos são ‘Bom-Dia Tristeza’, de Otto Preminger, e ‘Os Inocentes’, de Jack Clayton, mas podem ser citados muitos outros : Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger; ‘Tarde Demais para Esquecer’, o sublime melodrama de Leo McCarey; ‘O Céu por Testemunha’ e ‘A Noite do Iguana’, de John Huston, ‘Os Pára-Quedistas Estão Chegando’, de John Frankenheimer – em que formou outro par adúltero com Burt Lancaster –; a lista é infindável. Em 1994, Deborah recebeu um Oscar honorário da academia. Pisou trôpega naquele palco, devastada pelo Mal de Parkinson. Sua presença, naquela noite de glória, provocou comoção, como se o fato de aquela mulher maravilhosa haver envelhecido e nem de longe aparentar-se à fêmea (perdão) de sua fase de ouro, fosse um crime. Acho que, naquela noite, admirei ainda mais Deborah Kerr. A jovem Deborah, a Deborah madura, nós vamos ter sempre, eternizada pelo cinema. Mas a real, que não tinha medo de se expor, essa veio mostrar que envelhecer não é um crime e criminosa é a sociedade que, apostando só na juventude e na beleza, segrega seus velhos e os estigmatiza com seu preconceito. Até isso, além de todos os momentos inesquecíveis no cinema, tenho de agradecer a Deborah Kerr.