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Debatendo ‘Budapeste’ (2)

Luiz Carlos Merten

29 Maio 2009 | 12h52

Walter Carvalho definiu ‘Budapeste’ como um filme sobre duplos e espelhos. A definição aplica-se ao livro de Chico Buarque, o que significa que o espírito da obra de origem permanece na transcodificação cinematográfica. Não acompanhei o lançamento de ‘Budapeste’ nos cinemas e, de qualquer maneira, não sou do tipo que segue as resenhas, para ver, nem que seja como curiosidade, o que andam dizendo dos filmes. Leonardo Medeiros disse que ‘Budapeste’ recebeu críticas contraditórias. Teve gente que viu subserviência a Chico e outros acharam que o livro ganhou vida própria – uma identidade – na tela. Esse jogo de duplos e espelhos também se constitui na essência de ‘Los Abrazos Rotos’, o novo Almodóvar, como vocês poderão confirmar quando o filme estrear. Pedrito fala muito do duplo – o personagem do filme é um cineasta que ficou cego e assumiu seu pseudônimo, transformando-se em ‘outro’; o filme dentro do filme, ‘Chicas y Valises’, é um remake de ‘Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos’, que já era (entre outras coisas) sobre dublagem; e a cena-chave é quando o industrial, amante de Penelope Cruz, contrata uma mulher para ler os lábios, desta forma tentando descobrir se ela está tendo um affair com o diretor. A cena em questão – não vou contar para não tirar a graça, mas é a chave de ‘Los Abrazos Rotos’ – é quando Penelope entra na sala em que a leitora muito particular está lendo seus lábios. Aguardem! Duplos – e espelhos, como em ‘Budapeste’, mas eu tenho a impressão de que a questão essencial do duplo no filme, pelo menos para mim, refere-se a uma sensação que tive e preciso rever, para ver se ela se confirma (ou não). É um filme sobre dois amores, duas línguas, duas culturas, mas o que me pareceu é que são dois filmes tentando coexistir. Um, comercial, tentando ser palatável, como relato de amores e identidades superpostas, e outro ‘artístico’, de alguma forma experimental, na sua investigação da palavra (a serviço do amor) e da linguagem, num sentido amplo, seja a da literatura ou a do cinema. Esse é o verdadeiro duplo. Não sou o maior especialista sobre a literatura de Chico – ainda não li seu livro recente -, mas me parece que, independentemente da história, seu tema principal é sempre a própria escrita. Ruy Guerra radicalizou isso em ‘Estorvo’ (bem melhor do que ‘Veneno da Madrugada’). Sem ofensa para ninguém, acho que há um movimento em ‘Budapeste’, talvez no roteiro da produtora Rita Buzzar, tentando explicar Chico para iletrados, daí esses dois filmes a que me referi e que não se somam nem potencializam, mas enfraquecem e diluem. Saí da sala com a sensação de que Walter Carvalho colocara sua técnica, mas não seu coração em ‘Budapeste’. O filme não me pareceu visceral, no sentido de ‘necessário’. Vi, anotei algumas coisas, mas não me enriqueceu e, com certeza, detestei a informação nos créditos – a cena da estátua de Lenin é uma homenagem do diretor a Theo Angelopoulos. Ah, é? Realmente, eu tinha achado que fosse e ainda bem que o diretor, não confiando na gente, esclarece a questão. Pode ser um detalhe, uma bobagem, reconheço, mas essa ‘dualidade’, o ser erudito e o querer ser popular, não colou para mim. ‘Budapeste’, de qualquer maneira, vai bem. O filme estreou com 30 e poucas cópias e tem feito mais de 600 espectadores – 700 – por cópia. Não é um estouro, mas vai bem. E a maioria que lá estava, ontem, gostou. Vou rever ‘Budapeste’.