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Debatendo ‘Budapeste’ (1)

Luiz Carlos Merten

29 Maio 2009 | 12h36

Nem tive tempo de comentar com vocês, mas houve ontem à noite um debate sobre ‘Budapeste’ no HSBC Belas Artes. Gostaria de ter sido mais esperto e de os jhaver convidado a participar. Leonardo Medeiros e o diretor Walter Carvalho, mediados por Fernando Meirelles, discutiram a adaptação do livro de Chico Buarque. Estava cansado da viagem, o fuiso horário e tudo o mais, mas não ia perder um evento desses. Sou um privilegiado, reconheço, mas comecei minha semana assistindo a outro debate, em Paris, sobre ‘Pierrot le Fou’ (O Demônio das Onze Horas), de Jean-Luc Godard, com Anna Karina e o crítico Antoine de Baecque, autor de ‘Nouvelle Vague, Portrait d’Une Jeunesse’. Havia muita gente – predominantemente jovem – no Belas Artes. Encanta-me esse interesse por iniciativas do gênero, que mostram que há um público sedento por informação e troca de idéias. Walter Carvalho é gente finíssima. Perguntou-me à queima-roupa o que havia achado do filme. Acho que ele esperava uma resposta taco no taco. Tentei construir uma frase e ele cortou, rindo – ‘Não gostou!’ O debate foi muito legal e, em vários momentos, eu tive de me policiar para não entrar na discussão. Achei que seria pedante, porque muita coisa que foi levantada ontem à noite eu tive oportunidade de discutir em Cannes nas entrevistas que fiz com Lars Von Trier, Ang Lee, Tarantino, Ken Loach, o próprio Almodóvar, para o qual não tinha sido credenciado pelo distribuidor, mas o pessoal da assessoria, que conheço, me encaixou num grupo (de certo por me terem feito esperar tanto para falar com Penelope Cruz). Havia encontrado Leonardo Medeiros em Paris, no Nouveau Latine, que abrigava o Festival do Cinema Brasileiro. Conversamos e ele falou sobre determinada pessoa como sendo de trato difícil. Retruquei que ‘difícil’ também podia ser uma definição aplicada a ele. Leo ficou surpreso – Walter Carvalho diz que ele é ‘facinho’ –, queria saber quem reclamara. Marco Bechis, por exemplo. Leo desprezou o diretor de ‘Terra Vermelha’. ‘Ah, mas esse eu dispenso.’ Achei muito interessantes algumas observações que foram feitas ontem à noite. O ator disse que é racional no ato de interpretar e precisa saber muito (tudo?) sobre seus personagens. Lembrei-me de Charlotte Gainsbnourg, na entrevista sobre ‘Anti-Christ’. Charlotte disse que Lars Von Trier não lhe dava informação nenhuma sobre a personagem nem o filme. Ela chegou a relatar, o que me pareceu desconcertante como método, que interpretou a mesma cena gritando, sussurrando, chorando, rindo etc. O diretor lhe pedia diferentes reações sem oferecer pistas sobre o que queria. Mais tarde, ele escolheu na montagem e ela só descobriu o próprio trabalho ao assistir ao filme pronto. Fernando Meirelles, antecipando o debate, aproveitou a cena de sexo de Leonardo com a atriz húngara para lembrar a polêmica que Pedro Cardoso desencadeou no Festival do Rio, no ano passado. Ao contrário da concorrência, que quis criar um fato – a polêmica! – não liguei muito para aquele desabafo, que me pareceu despropositado. Pobre Pedro! Vai ter uma síncope quando vir ‘Anti-Christ’. O desnudamento físico de Charlotte e Willem Dafoe, as simulações de sexo explícito – ela lembrou que o set era frequentado por atores pornôs, para as cenas hard, de penetração –, tudo isso vai fazer o Pedrito daqui perder o rumo, mas a própria atriz, que me admitiu ter tido sempre problemas com seu corpo, com os seios reduzidos etc, disse que essa ainda foi a parte fácil e o complicado foi mesmo o desnudamento emocional. Para o ator de verdade – e Leonardo Medeiros confirmou-o – esse tipo de cena coloca problemas específicos, mas não é mais difícil do que outros problemas, em outro tipo de cena. Charlotte chegou a dizer que deve ser masoquista, porque nunca se sentiu desconfortável e acha que essa ‘prova’ só a fez crescer como mulher e atriz. Charlotte foi melhor atriz em Cannes, Pedro Cardoso, com aquela cabecinha, sorry, não vai ser melhor ator nem ali na esquina. O post está enorme, muitos de vocês vão reclamar da falta de parágrafos. Volto daqui a pouco com outro aspecto que me interessa destacar.