As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De volta ao teatro, Sutura marca outro degrau na evolução de César Baptista

Luiz Carlos Merten

01 Maio 2018 | 17h00

Cá estou, em débito comigo mesmo. No fim de semana, fomos ver, Dib Carneiro, Cláudio Fontana e eu, o espetáculo Sutura, de Anthony Neilson. Confesso que não conhecia o autor, ou pelo menos que não o identificava. Neilson é escocês e o programa informa que fez parte de um grupo de dramaturgos circunscrito num movimento chamado in-yer-face theatre. O texto é DR, discute a relação, um casal hetero. O anúncio de que ela está grávida desencadeia todo um processo de questionamento – individual e de dupla. Querem ou não querem esse filho? O próprio ator Ivo Müller foi quem traduziu o texto e quem divide a cena com ele é Ana Cecília Junqueira. O diretor é César Baptista, cria de Gabriel Villela e Antunes Filho – existem agradecimentos aos dois. Até onde entendi, de uma conversa de César com Cláudio Fontana, o texto é linear e as repetições que tornam a dramaturgia mais potente são invenções do diretor. Sei lá, mas de repente estava pensando. Não conheço, ou pelo menos não estou lembrando, de textos que discutam relações gays. Falo no sentido da DR mesmo. O casal hetero é paradigma de universalidade. Há todo um movimento de liberação de fantasias sexuais, perdoem-me a rudeza. Pau, boceta, chupar, etc. Nada disso choca, mas pelamor de Deus o que, nessa quadra do tempo e da vida, ainda pode chocar? Só essa gente louca que ainda se incomoda com nudez e palavrão… No limite, o casal está terminando, recomeçando? Encontros, desencontros, desejos, sonho, ficção, realidade, memórias, imaginação. Gostei muito de ter visto Sutura, e esse gostar passa pelos atores. Ivo Müller é um assombro. Brechtiano, evita o envolvimento afetivo com o personagem e nisso tem em Ana Cecília a interlocutora perfeita. Procurei no programa e não encontrei a data de estreia nem até quando vai a opcupação do Espaço Ademasr Guerras, no Centro Cultural São Paulo. Não creio que Ivo e Ana Cecília, bons como são, venham a ser lermbrados para prêrmios de interprertação. Deveriam. Uma frase me tocou particularmente – ‘De qualquer maneira, todo relacionamento é baseado num sonho. A casa, as crianças, o cachorro, o felizes para sempre. É isso que dói quando você perde. É isso que você perde – o pequeno sonho que teve.’ No texto de apresentação, César Baptista diz que busca, na sua direção, uma aproxcimação com o sfumato na pintura. Tentando escapar à lógica cartesiana, instaura certezas transitórias e vacilantes. O terreno é movediço. Será por isso que o casal fica naquele jogo de mexer na terra – para fertilizá-la? – no final? O próprio César elaborou a trilha, unindo diferentes interpretações de Summertime com Lascia Che’lo Pianga, de Handel, que Gabriel já havia utilizado na Crônica da Casa Assassinada, adaptado pelo Dib do livro de Lúcio Cardoso. César, vale lembrar, foi assistente de Gabriel na Crônica. Amei Sutura. É um belíssimo espetáculo de um diretor que amadurece a cada trabalho.