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Cultura » De volta ao ‘Rei do Carimã’

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Luiz Carlos Merten

15 Julho 2009 | 13h51

Fui ver ontem à noite ‘O Rei de Carimã’, de Tata Amaral, na pré-estreia do filme que integra o programa de cinema DocTV da Cultura e vai ao ar na emissora em agosto (dia 14). Achei bem legal, mas julgo necessário fazer um esclarecimento. Ao anunciar ontem a erxibição, contei que a origem do filme estava num incidente da vida da diretora, que, no velório de sua mãe, teria ouvido do tio a história de um crime cometido por seu pai. Sugeri, pois fui induzido a isso, por informações errôneas, que o pai teria matado um homem. Não – ele foi condenado por estelionato, devido a um cheque sem fundo. Chocada com a revelação – não no sentido moral, ela esclarece –, Tata viu no episódio, muitos antes depois, a origem da tristeza que identificava no pai e que tenta, agora, com o filme, exorcizar. O filme é uma investigação para mostrar que esse pai foi condenado por equívoco. Sua ficha é duplamente limpa, por um processo movido na Justiça e por essa declaração de amor da filha que chora por ele. Achei muito interessante e, já que tudo ocorreu em tempos sombrios, durante a ditadura do Estado Novo, pode-se supor que o caso do pai de Tata não fosse isolado. Até hoje esses casos ocorrem, de gente condenada por crimes que não cometeu e depois briga na Justiça por indenização ou reconhecimento. Enquanto isso, quanta impunidade! Por numerosos que sejam os casos, Tata foi a filha que tomou a peito desenrolar o imbroglio. É curioso, e foi o professor Francisco Araújo quem me chamou a atenção no final – vamos dar-lhe o crédito –, que ‘O Rei do Carimã’ chega na suíte de outros filmes em que filhas lançam luzes ou tentam interpretar o legado dos pais – a filha de Vinicius de Morais, Susana, no documentário de Miguel Faria Jr.; a de Humberto Teixeira, Denise Dumont, em ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’, de Lírio Ferreira. Mas a minha adesão ao documentário de Tata não se fez sem certa resistência, pelo formato. Tata teve consultoria de Jean-Claude Bernardet e ele age um pouco como advogado do diabo, conduzindo a investigação e questionando a intenção da autora. A resistência não foi a isso, mas ao fato de que o documentário de Tata parece carregar – ou ser – o próprio making of. Esse caráter de coisa rascunhada me desconcertou um pouco, embora, quanto mais pense, mais me parece instigante, agora. Tata admitiu, no início da sessão, que estava nervosa. O motivo ficou claro, depois – todo diretor, sempre, de alguma forma, fala de si por meio dos outros, mas Tata, aqui, se expõe mais do que em qualquer outro momento de sua carreira. ‘O Rei do Carimã’ vai dar o que falar e, sim, o filme tem algum parentesco com ’33’, de Kiko Goifman, mas os rumos e até as intenções são diversos.

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