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Cultura » De volta a Watergate

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Luiz Carlos Merten

02 Março 2011 | 17h25

O que seria de mim sem o site da 2001? Volta e meia o visito para saber dos lançamentos e Fred Botelho nunca me decepciona. Hoje mesmo, ao dar uma pesquisada rápida, descobri três filmes bons de escrever e que certamente têm sua importância na história do cinema (e na minha vida). Vamos por etapas. O primeiro – ‘Todos os Homens do Presidente’, de Alan J. Pakula, de 1976. Quem me acompanha – no jornal, no blog – sabe que considero ‘Um Lance no Escuro’, de Arthur Penn, mesmo sem nenhuma referência ao escândalo de Watergate, o filme que melhor retrata o clima dos EUA na época, quando reinava a mais absoluta desconfiança (uma querbra de confiança) nas instituições. Mas o filme de Pakula, que agora sai em blu-ray – nunca sei se a marca É obrigatoriamente caixa alta e baixa, assim: Blu-Ray –, está longe de ser nulo. O tema de Pakula, escrevi há pouco sobre ‘Klute’, é a quebra de confiança, nas relações pessoais ou institucionais. Vale para todos os seus filmes, mas, no caso de ‘Al The President’s Men’, a esse tema se superpõe a paranoia. O filme reconstitui, como thriller, a investigação dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, interpretados, respectivamente, por Robert Redford e Dustin Hoffman, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon, para evitar o impeachment. Os dois investigaram uma denúncia de que grampos haviam sido instalados na sede do Partido Democrata, o ‘The Washington Post’ encampou a causa e os conceitos de jornalismo investigativo e liberdade de imprensa nunca mais foram os mesmos. É muito interessante seguir o curso das investigações e, ao mesmo tempo, descobrir a complexidade dos personagens envolvidos (e não estou falando apenas da turma, a gangue?, encastelada na Casa Branca). Woodward e Bernstein seriam, ou são, os heróis dessa história, mas nós, como espectadores, não temos muita empatia, leia-se simpatia, por eles. Os dois não medem consequências e são do tipo que pisotearia a própria mãe para ganhar o Pulitzer. O roteiro de William Goldman foi premiado, um dos quatro Oscars que ‘Todos os Homens’ recebeu, incluindo o de melhor coadjuvante para Jason Robards (como o ‘editor’), mas a produção foi atropelada, nas categorias principais, melhor filme e diretor, por ‘Rocky, Um Lutador’. Sim, ‘Rocky’, o primeiro da série com Sylvester Stallone, dirigido por John G. Avildsen. Diz-se de muitos filmes – de todos os filmes – que poderiam, ser feitos diferentemente, se o mesmo roteiro fosse entregue a diferentes realizadores. Pakula filma muitas cenas no escuro, de forma quer o espectador não veja muita coisa. Nos inúmeros telefonemas que Woodward e Bernstein dão ao longo do filme, buscando testemunhos – ‘investigando’ –, a câmera parece colada ao rosto dos dois, acentuando a ansiedade, a tensão. Os mesmos diálogos poderiam ser filmados um pouco mais à distância, sem essa crispação, e o efeito, o próprio filme, seriam outros. Pode-se dizer que Pakula manipula, num filme que exalta o direito à informação como inalienável na democracia, mas o filme é forte e Jason Robards tem o papel de sua vida. Era (é? Está vivo?) um bom ator e foi o substituto de Humphrey Bogart na cama de Lauren Bacall, marcando presença em westerns como ‘A Hora da Pistola’, de John Sturges, com sua visão revisionista do tiroteio do OK Corral, e ‘A Morte não Manda Recado’, The Ballad of Cable Hogue, um belo Peckinpah, feito logo após ‘Meu Ódio Será Sua Herança’ e, de certa forma, um antídoto à violência do outro, embora tratando, basicamente do mesmo tema (o estudo do comportamento humano numa época de grandes transformações). ‘Todos os Homens’ está saindo pela Warner. E, para dar continuidade à história de nossos bravos soldados da notícia você pode ver ‘A Difícil Arte de Amar’, de Mike Nichols, com Jack Nicholson e Meryl Streep. O filme, com roteiro da futura diretora Nora Ephron, é um violento requisitório (uma vingança?) de ex-mulher contra o marido (Carl Bernstein) que não fez outra coisa senão corneá-la. Esse comportamento já era conhecido e, talvez por causa dele, Pakula tenha se recusado a tornar seus rapazes mais simpáticos. Tenho uma reunião de pauta daqui a pouco. Os outros dois filmes sobre os quais quero falar, o francês ‘A Garota dos Olhos de Ouro’ e o italiano ‘Allonsanfan’, muito provavelmente ficarão para amanhã. Me aguardem!