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Cultura » De volta a Leões e Cordeiros

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Luiz Carlos Merten

21 Novembro 2007 | 10h34

Fui rever ontem ‘Leões e Cordeiros’ e confesso qure gostei ainda mais do filme de Robert Redford. Não sei é se é uma utopia do Redford, como diretor, ou do Tom Cruise, como ator e produtor, mas gosto do conceito de um filme de idéias, no qual os personagens estão o tempo todo discutindo, taco no taco, questões essenciais relativas à participação política como dado essencial da vida. Não conheço muita gente que consiga manter aquele nível de discussão (e argumentação), não apenas entre jovens, mas também colegas jornalistas. Adoro a forma como o professor Redford pressiona o estudante e também a postura irônica (e agressiva) da jornalista Meryl Streep diante do senador e acho muito honesto que o filme não idealize nem um nem outro, mas faça com que Redford e Meryl, lá pelas tantas, assumam sua autocrítica. Não estou dizendo nada que já não tenha observado antes, quando falei pela primeira vez sobre “Leões e Cordeiros’ no blog, mas ontem uma coisa ficou martelando na minha cabeça, e isso acho que não comentei. Matthew Michael Carnahan, roteirista de ‘Leões e Cordeiros’, também escreveu ‘The Kingdom’ (O Reino), que virou filme de Peter Berg com Jamie Foxx. Uma das tiradas inteligentes do roteiro de ‘Leões e Cordeiros’ é o ataque ao alegado apoio norte-americano à democracia. Saddam Hussein violou não sei quantas resoluções da ONU, mas foi armado pelos norte-americanos e com certeza não foi porque era antidemocrático que os EUA invadiram o Iraque. A fala a que me refiro diz respeito à Arábia Saudita. Se o compromisso é com a democracia, por que apoiar um dos regimes que, em todo o mundo, mais celebram a desigualdade, com todas as tensões daí decorrentes? Já era uma pergunta que estava em ‘Syriana’, de outro roteirista transformado em diretor, Stephen Gaghan. Mas, enfim, isso é lateral em relação ao que quero dizer. ‘The Kingdom’ mostra essa equipe norte-americana que investiga atentado. As pistas levam à Arábia Saudita e Jamie Foxx ganha apoio de agentes locais, seguindo-se a baboseira de ele dar a bandeira dos EUA ao filho de um desses homens que morrem em combate, selando o compromisso das duas nações com o combate ao terrorismo e o fortalecimento da democracia. O filme é minimamente honesto ao captar, no desfecho, o olhar de ódio de um garoto árabe que vai continuar a guerra. Ocorre, como já disse, que ‘The Kingdom’ foi escrito por Matthew Michael Carnahan e não deve ser mera coincidência que em ‘Leões e Cordeiros’, também escrito popr Carnahan, o militar que comanda a desastrada operação no Afeganistão seja interpretado por Peter Berg, que dirigiu ‘O Reino’. Será alguma forma de crítica, de autocrítica do roteirista, em parceria com o diretor Redford, desculpando-se por que ‘The Kingdom’ amacia, em forma de relato de ação, o que poderia ter sido uma crítica forte? Claro que isso vocês só vão poder avaliar quando assistirem a ‘O Reino’, mas é interessante que tantos filmes, lançados simultaneamente, abordem a Guerra do Iraque. Deve estrear logo (na próxima semana)’In the Valley of Elah’ e a gente já viu na Mostra o novo Brian De Palma, ‘Redacted’, que eu confesso que achei meio tarantinesco, ‘À Prova de Morte’ no Iraque, alguma coisa assim. É interessante destacar que essa ofensiva iraquiana revela uma nova posição de Hollywood. No passado, o cinemão sempre atrelou sua produção aos interesses da Casa Branca – na 2ª Guerra, na Guerra da Coréia. Durante boa parte da Guerra do Vietnã, Hollywood ignorou o conflito e só nos anos 70, com os protestos na rua, foi que começaram a surgir os filmes críticos sobre o assunto. Só depois que a guerra terminou, ‘O Franco-Atirador’, de Michael Cimino, e ‘Amargo Regresso’, de Hal Ashby, receberam a enxurrada de Oscars. Toda essa profusão de filmes sobre (e contra) a Guerra do Iraque indicam não apenas que a indústria pode estar tomando partido, mas também que há uma demanda do público por ela.