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Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2008 | 11h11

Existem casos curiosos de filmes que viram míticos na vida de grandes diretores. Joseph Losey e Luchino Visconti nunca conseguiram viabilizar as respectivas adaptações de ‘Em Busca do Tempo Perdido’ e ambos poderiam muito bem ter feito belas versões do romance-rio de Marcel Proust. Losey, afinal, fez ‘O Mensageiro do Amor’ e Visconti muitas vezes se voltou para o passado, para refletir sobre o ocaso de sua classe, a aristocracia. Losey também sonhou durante anos com a adaptação de ‘Galileu Galilei’, de Brecht – ele que havia trabalhado com o próprio dramaturgo e que conseguiu aplicar no cinema, mídia que não se presta a isso, o chamado ‘distanciamento crítico’ brechtiano. Eu, às vezes, até duvido que Losey tenha realmente conseguido fazer seu ‘Galileu’ – em 1974, com Topol e John Gielgud –, porque nunca vi filme mais misterioso. Já procurei em grandes lojas especializadas do exterior, e nada de ‘Galileu’. Assisti a retrospectivas de Losey, e em nenhuma delas ‘Galileu’ era anunciado. O filme existirá mesmo? Faço este longo preâmbulo – ‘nariz de cera’, como se diz em linguagem jornalística – para atender ao Severo, chegando a ‘O Homem Que Queria Ser Rei’. John Huston era louco pelo original de Rudyard Kipling. Tentou adaptá-lo com Humphrey Bogart e Clark Gable nos anos 50, e depois com Paul Newman e Robert Redford, na seqüência do sucesso da dupla em ‘Butch Cassidy’. Huston só fez o seu ‘Homem Que Queria Ser Rei’ em 1975. Se é verdade que Deus havia conspirado contra ele em ‘Moby Dick’ – leia post anterior sobre o assunto –, o próprio Senhor já havia voltado às boas com o grande diretor na época da releitura de Kipling. É impossível imaginar o filme sem Sean Connery e Michael Caine. São extraordinários, enriquecendo os personagens com suas personas. O próprio Huston talvez tenha sido o último de uma estirpe de grandes diretores aventureiros de Hollywood. Howard Hawks adorava caçadas, corridas de carros e até pilotava aviões. Ele fez filmes sobre tudo isso, incluindo ‘Hatari!’, que é, entre outras coisaas, uma metáfora da arte do cinema como caçar imagens. Huston fez grandes filmes de aventuras – o dramático ‘O Tesouro de Sierra Madre’, o cômico ‘Uma Aventura na África’ (que inspirou ‘Coração de Caçador’, um Clint Eastwood pelo qual sou louco). Sempre achei muito interessante a história de que ‘The African Queen’ era uma aventura a sério e que só virou uma comédia quando Katharine Hepburn, por iniciativa própria, imprimiu à sua personagem a entonação característica da ex-mulher (Eleanor) do presidente Franklin Roosevelt e Bogart lhe deu a réplica daquele jeito que transformou em cult uma aventura que talvez nem fosse tão boa assim (mas ficou). ‘O Homem Que Queria Ser Rei’ já nasceu com outra ambição. Parece-me que Huston sempre teve consciência de que não ia tratar a aventura como ‘gênero’ e sim, como investigação sobre o território da psicologia e do mito, em que o homem consegue dar (ou descobrir) sua medida. A história daqueles aventureiros no fim do mundo, traídos pela ganância de um deles – e o personagem hustoniano muitas vezes, em ‘Relíquia Macabra’, ‘Sierra Madre’ e ‘A Carta do Kremlin’ cedeu à cobiça para se (auto)destruir –, é, ao mesmo tempo a súmula do pensamento do diretor (a inevitabilidade do fracasso) e uma investigação sobre a arte de narrar, pois o relato nos é proposto pelo próprio escritor, Kipling. Que filmaço!