Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » De volta a Huston (2)

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Setembro 2008 | 14h32

Vou voltar a ‘Um Livro Aberto’ para chegar a ‘Moby Dick’. Em sua autobiografia, John Huston diz que a adaptação do livro de Herman Melville foi o mais difícil filme que fez. E ele acrescenta que perdeu tantas batalhas durante a filmagem que chegou a pensar que o assistente de direção estava conspirando contra ele, mas conclui, filosoficamente, que era Deus quem conspirava. Huston, lógico, está metaforizando o fato de que a obsessão do Capitão Ahab na sua caçada à baleia branca na verdade é a obsessão do homem em luta contra Deus. Muito já se escreveu sobre ‘Moby Dick’ como uma blasfêmia, e a afirmação de Huston apenas reforça isso. Os desafios a que ele se refere foram físicos, orçamentários e, no limite, a luta de um ‘autor’ para defender seu filme do estúdio. Tudo isso talvez tenha sido supérfluo. A grande luta, que talvez já estivesse perdida por antecipação, era justamente ousar/tentar fazer uma adaptação à altura do livro. Pode ser que Huston não tenha conseguido, mas ‘Moby Dick’ é um daqueles fracassos – isso, naturalmente, se for mesmo um fracasso – que honram qualquer filmografia. Leonard Maltin lhe dá três estrelas (num total de cinco)e a verdade é que a validade do esforço (de fazer ‘Moby Dick’) e a inevitabilidade do fracasso (se for mesmo, insisto) são os próprios temas ‘autorais’ que percorrem toda a obra de John Huston, independentemente de ele possuir um estilo, ou não. Há um culto a ‘Moby Dick’. Um de seus oficiantes era o surrealista Ado Kyrou, que chegou a escrever que Huston poderia ter escrito o livro como Melville poderia ter feito o filme, tal a convergência de suas visões. Huston foi roteirista antes se tornar diretor. E aqui ele contou com ninguém menos do que Ray Bradbury como co-roteirista. Às vezes, você ouve dizer que é preciso trair, numa adaptação, para permanecer fiel. Exemplo disso é a reação contraditória de Starbuck, que primeiro se opõe à obstinação de Ahab, dizendo alguma coisa como ‘A fúria contra um simples animal é uma blasfêmia’, para depois, após a morte do capitão, comandar a batalha contra a baleia branca, dizendo justamente que ela pode ser grande e monstruosa, mas é só uma baleia e a tripulação do Pequod não foge de baleias, mas as mata. Naturalmente que ao fazer isso, uma idéia de roteiro, Starbuck está cumprindo o que diz o padre Mapple – e eu sempre achei que Huston fez o filme por causa dessas palavras – “Infelizes os que condenam os outros estando eles próprios condenados.” Kyrou apontava para a identificação entre Huston e Melville. Gregory Peck, que interpretou Ahab, tinha outra leitura e dizia que a identificação de Huston era com o capitão, que ele queria interpretar, vendo no personagem uma soma da sua persopnalidade com a de seu pai, o lendário ator Walter Huston (que ganhou o Oscar de coadjuvante por ‘O Tesouro de Sierra Madre’). Huston não pôde interpretar Ahab em ‘Moby Dick’, de 1956, mas 15 anos mais tarde criou outro capitão obsessivo em ‘Fúria Selvagem’, grande filme de Richard C. Sarafian que possui ecos de ‘Moby Dick – embora a idéia do navio carregado pelo seco pareça mais uma antecipação de ‘Fitzcarraldo’, de Werner Herzog. É engraçado (para mim). Assisti a ‘Moby Dick’ uma única vez, na TV, em versão dublada e guardo uma lembrança muito viva de cenas inteiras. Comprei o DVD e nunca o vi. Fiquei agora com vontade de fazer isso. É um filme visualmente esplêndido – fotografia de Oswald Morris, se não me engano –, com interpretações magníficas. A de Richard Basehart, o ‘Louco’ de ‘A Estrada da Vida’, de Fellini, aqui transformado em Ishmael, o único sobrevivente do naufrágio do Pequod, é coisa de louco e só pode ter sido uma ironia de Huston pedir a um conde austríaco, Friederich Lebedur, que fizesse o papel do canibal Queequeg. Cito os dois e não posso omitir Orson Welles em seus parcos minutos – quantos? Quatro ou cinco? – como o padre Mapple. E eu, às vezes, me admiro. Sempre houve vida inteligente em Hollywood – os Ford, Hawks, Walsh, Mamoulian, Mankiewicz infiltrados nos grandes estúdios –, mas o que me espanta não é bem isso e sim, como se ousava mais há 50 anos. Toda a discussão sobre a máscara da divindade em Moby Dick é uma subversão do maniqueísmo. Ahab, senão exatamente o livro, diz que Deus é o mal e o que está em discussão é um pouco quem representa o quê? Se o mal for o obsessivo Ahab, a baleia pode ser o bem, mas se for ela o mal Ahab terá sofrido seu contágio ao caçá-la, implacavelmente. O enigma permanece, mais de meio século de cinema depois. P… filme.