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Luiz Carlos Merten

16 Setembro 2008 | 13h32

Mauro me pede que fale sobre ‘Moby Dick’ e Fernando Severo, pegando carona no fato de que estamos de volta a John Huston, também quer ler duas ou três coisas sobre ‘O Homem Que Queria Ser Rei’. Antes de responder a um e outro, vou ao próprio Huston, no 35º capítulo de sua autobiografia, ‘Um Livro Aberto’. Ele diz que estava falando em estilo – e reconhece não possuir um –, mas antes do estilo afirma que é preciso falar em gramática. Pois há uma gramática do cinema e Huston diz que suas regras são tão inexoráveis como as da linguagem, encontrando-se nas próprias imagens. Quando a câmera inicia ou dissolve uma cena? Quando se deve escurecer, usar a panorâmica, o carrinho e cortar? As regras que determinam esses recursos técnicos são bem definidas, dizia Huston, mesmo reconhecendo que às vezes precisam ser contrariadas ou desobedecidas. É muito interessante a análise que o grande diretor faz do corte. Ele diz que, na vida, passamos o tempo todo ‘cortando’. E acrescenta – desvie os olhos de um lado a outro da sala. Observe como, sem querer, você pisca. E isso, dizia Huston, é um corte. É curioso como existem tantos livros de teorias sobre o cinema, mas as reflexões práticas, simples, de Huston são enriquecedoras. Também acho muito interessante quando, no livro, ele critica a mania de fazer refilmagens. Recohecendo que, ele próprio, fez filmes que não deram certo – caso de ‘Raízes do Céu’, adaptado de Romain Gary –, Huston diz que esses são os que merecem uma refilmagem e não aqueles que não precisam (e quase nunca conseguem) ser melhorados. Não sei, mas pensei agora em Michael Haneke, que refilmou seu ‘Violência Gratuita’ (Funny Games) plano a plano, quadro a quadro. Na verdade, Haneke clonou seu filme austríaco com astros de Hollywood. Eu até agora não entendi por que ele fez isso. Huston talvez se escandalizasse com o quê – preguiça? – de um diretor que se repete, voltando-se sobre si mesmo.