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De volta à favela

Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2010 | 10h46

Fui rever ‘Cinco Vezes Favela’. Não havia muita gente no cinema – a enorme sala 3 do Arteplex –, mas eu confesso que, se já gostava do longa em episódios produzido por Cacá Diegues, gostei mais ainda. Não tenho acompanhado a discussão sobre o filme, se é que houve uma, mas numa olhada que dei na crítica de Eduardo Escorel na ‘Bravo’ – estava dando sopa na casa de um amigo, só mesmo assim –, não entendi porque ele não viu importância nenhuma no fato de o filme retratar a comunidade, a periferia, pelo olhar dos de dentro. Além de o conceito ser válido, o que pode fazer, e faz, a diferença é a qualidade. Só que eu pareço ter gostado mais do filme do que Escorel. Sempre gostei de três episódios, desde que vi o filme em Cannes – “Fonte de Renda’, ‘Arroz Com Feijão’ e ‘Acende a Luz’. Adoro o Silvio Guindane no primeiro, Ruy Guerra no segundo – ele é muito engraçado na pele do vendeiro de maus bofes – e me emociono com o terceiro, que é o último na cronologia do filme. As histórias em geral são tristes – exceto, talvez, a primeira – e o “Acende a Luz’ termina em festa, com um significado metafórico muito grande. Gosto demais do ator que faz o eletricitário e quando ele se atraca com a moradora do morro para dançar, ela com aqueles peitos enormes, generosos, eu entro no clima e me sinto parte daquele universo. Em todas as conversas que tive com integrantes da equipe, tentando entender como foi montada a cronologia dos episódios, o ‘Acende a Luz’ sempre foi o final, justamente por terminar o filme para cima. Gostava menos de ‘Concerto para Violino’ e ‘Deixa Voar’, mas, na revisão, os dois me apanharam. “Concerto’ é triste demais e os atores, Thiago Martins, a bela Cínthia Rosa e Samuel de Assis, me pareceram muito sinceros. ‘Deixa Voar’, me lembrando ‘O Caçador de Pipas’, me levou numa viagem e, mais uma vez, gostei do ator. Aquele garoto alto, meio tímido e desengonçado, que entra em território inimigo para recuperar a pipa e que é salvo, no limite, pelo cara de olho na irmã dele, me parece um personagem muito especial. E, quando ele encontra a garota e os dois vão tomar sorvete, meu lado romântico se alegra pela dupla. Tem uma expressão que ele usa, a linguagem do morro, quando pede ao amigo que o acompanhe e lasca aquele ‘consideração’, dito de maneira meio arrastada, que eu acho o máximo. Como todo filme em episódios, ‘Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos’ é irregular, mas ouso dizer que, na comparação – excetuado ‘Couro de Gato’, de Joaquim Pedro, que foi integrado à coletânea, tendo sido feito antes –, a nova versão não faz feio, pelo contrário, em comparação com a antiga, que é considerada um dos marcos do Cinema Novo. O novo ‘Cinco Vezes Favela’ é dedicado a Leon Hirszman, idealizador do formato e que dirigiu o episódio eisensteiniano ‘Pedreira de São Diogo’, no original. Quero crer que o pai de minha colega Maria Hirszman teria gostado.