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Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2010 | 14h30

Aleluia! De volta à casa. Cheguei ontem depois de um dia intenso no Rio. Por causa da ida a Paulínia para assistir a ‘Tropa de Elite 2’ – e fazer a capa da edição de ontem do ‘Caderno 2’ -, pude entrevistar o cineasta Bruno Dumont, homenageado do Festival do Rio, somente pela manhã. Tinha matérias para a edição do dia do ‘Caderno 2’, mas elas caíram por uma boa causa – o Nobel atribuído a Mario Vargas Llosa, colaborador do ‘Estado’. Mal consegui tempo para almoçar e corri ao pavilhão do festival para entrevistar Pilar López de Ayala e Alberto Amann, atores de ‘Lope’, de Andrucha Waddington, que foi o filme de encerramento do evento carioca. Achei correto, na hora, mas é curioso como ‘Lope’ veio crescendo dentro de mim. Tenho me lembrado muito de um velho filme de Riccardo Freda, que talvez fosse até melhor, embora não tão bem produzido. ‘O Magnífico Aventureiro’, com Brett Haley, foi um dos três filmes que Freda fez em 1963. Conta a história de Benvenutto Cellini e eu me lembro que, numa sucessão de três cenas em cadeia, o diretor definia o personagem – guerrreiro, artista e amante. ‘Lope’, sobre Lope da Vega, tem esse mesmo perfil, mas Andrucha não é tão sintético. Precisa de mais tempo para revelar a complexidade – e os meandros – dessa trajetória. Gostei muito de Amann – não me lembro se é com dois Ms ou Ns -, argentino (de Córdoba), um tipo bem guapo, com um desenho de rosto semelhante ao de Javier Bardem, e de Pilar Ayala, com quem terminei falando bastante sobre ‘O Estranho Caso de Angélica’. Ela protagoniza o filme de Manoel de Oliveira que vai abrir a Mostra, no dia 21. Foram bem bacanas, mas eu nem tive tempo para relaxar depois das entrevistas. Corri para o aeroporto – para descobrir que meu voo estava atrasado. O aeroporto de São Paulo estava fechado por causa da chuva, não havia avião no Rio e eu terminei chegando em casa às 11 da noite. No aeroporto, enquanto aguardava, em vez de postar, tive de enviar o destaque de domingo do ‘Telejornal’. Escolhi o duplo formado por ‘Cidadão Kane’ e ‘A Dama de Shanghai’, dois clássicos de Orson Welles que o TCM apresenta no domingo, às 21h05 e 23h20. Vou até procurar na Coleção de ‘Filme Cultura’ a entrevista de Jacques Demy, na qual o diretor de ‘Lola, a Flor Proibida’ e ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, em visita ao Brasil, nos anos 1960, declara que, apesar da fama de ‘Kane’, ‘A Dama’ é o melhor e mais inventivo filme de Welles. É difícil discordar quando se pensa, especificamente, na cena da galeria de espelhos, tantas vezes imitada, mas nunca igualada. Enfim, nada postei sobre a vitória de Vargas Llosa no Nobel. Sempre gostei muito dele. Lembro-me de ter lido ‘Los Cachorros’ e ‘Conversaciones en la Catedral’ em espanhol, ‘Tia Júlia e o Escrevinhador’, ‘Pantaleão’ e os demais livros li traduzidos. Somente agora, na capa do ‘Caderno 2, um texto acurado (como sempre) de Antônio Gonçalves Filho, estou vendo a justificativa da Academia Sueca para a premiação. Não se trata só de um reconhecimento do valor literário de Vargas Llosa, nunca é para aqueles suecos. É também uma tomada de posição política. Vargas Llosa foi premiado por sua ‘cartografia das estruturas do poder e mordazes imagens da resistência, da rebelião e derrota do indivíduo.” Confesso que nem sempre compartilho as opiniões do escritor, principalmente sobre o processo democrático na América Latina, mas não há, nem ao discordar, como não reconhecer sua coerência. Ele é bom demais da conta, como escritor. Gosto das adaptações que o cinema fez de seus livros. Em 1974, Jorge Fons filmou ‘Los Cachorros’, contando a história de um homem que foi mutilado na infância, perdendo o pênis devorado por cães, e que passa pela vida amargurado, incapaz de se relacionar com as mulheres que ama. É um filme tão triste, ou será que ele ficou assim no meu imaginário, tanto tempo depois. Amava os atores, José Alonso e Elena Rojo, nunca me lembro se é Helena (com H ou não), e ela também fez o ‘Aguirre’ de Werner Herzog. Jorge Fons é mexicano. Peruano como o escritor, Francisco Lombardi assina ‘Pantaleão’ e o filme, vencedor de vátrios Kikitos em Gramado, tem Salvador del Solar no papel do capitão que é convocado pelo Exército para montar serviço de prostituição, visando atender à urgência do desejo sexual dos militares que servem em postos avançados da selva amazônica. Pantaleão, o mais fiel dos homens, revela uma inesperada aptidão que fasz dele o maior proxeneta do país, o que permite a Lombardi, com base em Vargas Llosa, deitar e rolar sobre a serriedade da instituição Exército. Lembro-me que o filme fez sensação por conta da p… mais caliente, interpretada por Angie Cepeda, uma potrancona carnuda e cheia de curvas, aquilo que Stanislau Ponte Preta chamaria, machista mas realisticamente, de ‘fêmea para 400 talheres’. Já estou nos cascos para ler o que será o discurso de agradecimdento de Vargas Llosa perante a Academia Sueca, acho que em dezembro. O de Gabriel García Márquez foi editado em livro e era uma peça antológica. Vargas Llosa, que tantas vezes polemizou com García Márquez, por conta de seu engajamento com Fidel (principalmente), não vai ficar atrás. Vem aí chumbo grosso, e embalado em grande literatura.

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