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Luiz Carlos Merten

30 Maio 2007 | 05h11

PARIS – Terminei desistindo do Cimino (a versão completa de O Portal do Paraíso) porque, a caminho da Filmoteca do Quarteier Latin, passei ontem por outro cinema de arte/ensaio, o Accatone, e descobri que havia um ciclo dedicado a De Sica. Perdi Milagre em Milão – que nunca vi no cinema e a Versátil lançou em DVD no Brasil -, mas em compensação revi Umberto D. Pelamor de Deus! O que é a cara do Carlo Battisti, que faz o velho solitário? De Sica fez um dos grandes filmes sobre a solidão e a velhice. Bergman fez o outro, Morangos Silvestres, que eu até prefiro, um trabalhando mais no registro social, o outro no existencial, mas uma coisa eu acho incrível. Battisti não era um ator profissional. Victor Sjostrom, que faz o professor Isak Borg no filme do Bergman, era um grande diretor (de grandes filmes – A Carroça Fantasma e O Vento). Sem forçar a barra, representando o mínimo, o que esses dois passam para o espectador não está no gibi. De Sica foi uma figura extraordinária do cinema italiano e mundial. Impôs (com Rossellini) o neo-realismo e fez filmes que fazem parte da história e do nosso imaginário seguindo fielmente os preceitos do neo-realismo, que criara – pobreza material, roteiros (de Cesare Zavattini) de fundo social, atores não pçrofissionais que expressavam o ser e o estar do homem comum, que é o prtotagonista absoluto dos grandes filmes do De Sica. Mais tarde, Carlo Ponti fez dele o diretor oficial de sua mulher, Sophia Loren. Esta fase foi melhor para Sophia, que virou uma estrela internacional, mas a abertura de Duas Mulheres é a negação do neo-realismo. Aquela maneira de filmar Sophia em primeiro plano, o close, tudo aquilo é divismo, o cinema dos telefones brancos, contra o qual se insuirgira o neo-realismo (mesmo que a história seja de pequenas vidas arrastadas pelo turbilhão da guerra). Acho O Jardim dos Finzi-Contini, que deu a De Sica seu quarto Oscar, um filme de grande beleza, mas um equívoco, do ponto de vistga ideológico. Não é porque o nazi-fascismo destruiu o estilo aristocrático e elegante de vida daquela elite judaica que Hitler, Mussolini e seus seguidores são uma aberração. O furo é mais embaixo, por mais tristye (e bonito) que seja ver a desintegração daquele jardim magnífico, antes protegido por muros. De Sica morreu sem realizar seu sonhado projeto de filmar Um Coração Simples, adaptado de Flaubert. Quem fez o filme foi Suzana Amaral e se chama Uma Vida em Segredo, mesmo que seja uma adaptação de Autran Dourado. Não digo que o Autran tenha plagiado Flaubert, mas ao ler Um Coração Simples, editado no Brasil pela LMP – acho que é Uma Vida Simples, não me lembro mais -, a impressão é de que estava vendo Uma Vida em Segredo. Finalmente, foi legal (re)ver Umberto D em Paris. De Sica viveu seus últimos anos aqui, porque a Itália não reconhecia o divórcio e ele quis se casar com sua última companheira, antes de morrer. Saí do cinema depois de ver Umberto D e vim descendo o Boulevard Saint Michel, em direção ao Sena e ao hotel. A cabeça fervilhava. Tenho a minha vida, você tem a sua, mas essa possibilidade que o cinema nos oferece de compartilhar a vida dos outros é uma coisa maravilhosa. Chorei por Umberto D, por De Sica, que traiu seus princípios (mas nunca deixou de sonhar com a simplicidade de seu coração). A psicanálise mais básica diz que estava chorando por mim, mas este é um blog de idéias, não um divã e nem vocês são psicanalistas. Chega!