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De quem é a culpa?

Luiz Carlos Merten

10 Junho 2014 | 11h00

Arrastei meu amigo Dib Carneiro para ver A Culpa É das Estrelas, ontem à noite. Vi, ou melhor, ouvi que ele deu algumas fungadas durante a projeção. Eu, que sou um notório manteiga derretida, não consegui chorar. Ou, melhor, para ser honesto, rolou uma lágrima na cena em que o garoto ouve o elogio fúnebre antecipado da namorada. Não fazia a menor ideia de que A Culpa É das Estrelas baseia-se no best seller de John Green, autor da moda. Quere dizer, sabia que era adaptado de um ‘um consagrado best seller’, mas ontem, no Frei Caneca, passaram uns três ou quatro trailers e eram todos adaptações de consagrados best sellers. Isso vai virar gênero, se já não virou. Descobri, e não sem surpresa, que o filme é com Shailene Woodley, e eu sou fãzaço da garota de Convergente, Divergente, sei lá. Ela e o garoto formam uma bela dupla. Como não tinha registro dele – nem do diretor -, resolvi pesquisar ao chegar em casa. Descobri que se chamam Ansel Elgort (mas, claro, é o carinha da nova Carrie e já formava dupla com Shailene em Divergente) e Josh Boone. E somei, depois, ao título, na minha pesquisa no Google, a palavrinha ‘críticas’. De novo, como no caso do ‘Estranho Federico’, quase chorei as lágrimas que não verti no filme – de raiva. Li quatro ou cinco críticas tão iguais que pareciam a mesma. Alguma fazia gracinha, mas no básico o foco era Love Story para o século 21, Romeu e Julieta com câncer em lugar de Capuletos e Montecchios. Ninguém se deu sequer ao trabalho de levantar a questão – por que, durante a visita a Amsterdã, o casalzinho visita o museu de Anne Frank? A única referência que encontrei numa das ‘críticas’ foi quanto era cafona a cena dos aplausos para o beijo, sem nenhuma contextualização – onde, quando, como, por quê. Ai, meu Deus. Quero dizer que A Culpa É das Estrelas foi, para mim, uma boa surpresa. O câncer é o vilão da história, ou o oblivion, o esquecimento, como teme o garoto, que não tem tempo de realizar as grandes coisas que sua imaginação gostaria? E o que é pior que o câncer? O nazismo, que confinou a jovem Ana naquele sótão. Ela não teve o primeiro amor, não se fez mulher, mas permanece viva na lembrança de milhões. E o que fez para isso? Colocou em seu diário o que viveu, e um pouco do que gostaria de ter vivido. A dupla de A Culpa É das Estrelas ama-se e quanto ao esquecimento… Vejam. O aplauso, naquele sótão, não é ao beijo. É à vida. E o escritor, o cínico que, na essência, é um amargurado, somos nós, os críticos. Gostei de ter visto A Culpa É das Estrelas. O diretor Josh Boone, seja lá quem seja – o fato de haver feito Ligados pelo Amor não me diz muita coisa -, foi além do tearjackett. Gostei demais de Laura Dern, que faz a mãe, e do pai, que nem sei quem é. Lembrei-me de François Truffaut, uma mulher para dois. O triângulo formado por Jim, Jules e Catherine podia perturbar as convenções morais da época, como talvez perturbe até hoje, mas muito mais perturbadora era a imagem dos nazistas incendiando livros – que batia na tela apenas alguns segundos.