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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2011 | 21h13

Tenho minhas diferenças com Brian De Palma, mas gosto muito de alguns filmes dele, principalmente os mais antigos. ‘Vestida para Matar’, ‘Scarface’, ‘Dublê de Corpo’, ‘Os Intocáveis’. Fico impressionado com o domínio que o diretor tem da linguagem e que ele usa de forma exuberante, como se quisesse acachapar a gente com seu virtuosismo. De Palma teve Alfred Hitchcock como referência em  boa parte de sua carreira, mas, embora obcecado pela cena do assassinato de Marion Crane na ducha em ‘Psicose’, a maior influência talvez venha de outro clássico do mestre do suspense, ‘Janela Indiscreta’, porque o voyeurismo é o motor da obra dele. Não tinha uma boa lembrança de ‘A Síndrome de Caim’, mas hoje peguei o filme andando na TV paga e não consegui desgrudar o olho. As cenas da terapeuta fazendo as regressões no personagem de John Lithgow – e ele vai revelando suas múltiplas personalidades – são um tour de force do ator, mas também do diretor. Adorei aquela cena do reencontro de Lolita Davidovitch com a filha, filmada de diferentes pontos de vista. Ela que fala com o dr. Dix (Lithgow); Lithgow, como o filho, Carter, que avança de trás, do elevador, com o bisturi para atacar o pai (seu abusador); os caras do motel, que seguem tudo à distância; e Steven Bauer que desce do carro e corre para evitar uma tragédia quando Dix, atingido, solta a menina e ela despenca do alto. Aquilo é puro Eisenstein e vale lembrar que De Palma homenageou/recriou a célebre cena da escadaria de Odessa – o carrinho do bebê – em ‘Os Intocáveis’. Aproveito para uma observação. Sempre me admiro como certos atores e atrtizes têm aquilo que se pode chamar de má estrela. Steven Bauer, por exemplo. O cara é (era) bonito, viril, talentoso. De Palma ofereceu-lhe bons papeis em ‘Scarface’ e ‘Caim’. Não adiantou. Steven Bauer não aconteceu na carreira, no cinema. Terá tido uma segunda chance na TV?