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Cultura » De Palma, decepcionante

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Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2006 | 12h04

Há sempre muita pompa e circunstância, muito glamour na abertura do Festival do Rio, com direito a tapete vermelho e multidão de fãs reunidos à porta do Cine Odeon BR, na Cinelândia, para ver entrarem os globais. A de ontem não fugiu à regra, mas eu confesso que fiquei decepcionado com o que deveria ser a cereja do bolo – o filme de Brian De Palma Dália Negra, que ele adaptou do romance de James Ellroy, que dá, por sua vez, tratamento ficcional a um célebre crime ocorrido em Hollywood, nos anos 40. Uma jovem pretendente a atriz foi encontrada com o corpo seccionado em dois, os órgãos extirpados, a boca rasgada, tudo isso tendo sido feito com precisão cirúrgica depois que ela já havia sido assasasinada a pauladas.
James Ellroy é obcecado pelo caso porque sua mãe foi morta não daquele jeito, mas quase. É um autor importante da Série Negra, mas o que faltou, por incrível que pareça, foi direção. Como faltou direção, se o filme é do De Palma? Curtis Hanson tirou um grande filme de outro livro de Ellroy, Los Angeles – Cidade Proibida. Fez um filme seco, duro, crítico, no qual as referências ao cinema incrementavam a ação – a garota de programas que tinha o look de Veronica Lake, por exemplo, virou uma personagem emblemática com Kim Basinger (e até deu o Oscar de coadjuvante para a atriz). De Palma é cinéfilo de carteirinha. Pelo menos metade de sua obra bebe na fonte de Alfred Hitchcock, com algum tipo de citação ao célebre assassinato de Marion Crane na ducha, em Psicose. Ser cinéfilo não ajuda muito, no caso de Dália Negra. E De Palma, que sempre teve um gosto fantástico por mulheres sexys, bonitas e talentosas, desta vez erra a mão. Scarlet Joansson costuma ser maravilhosa, mas não dá muito certo como mulher fatal. De Palma sabe disso e cria uma personagem oscilante (fatal, vítima, boazinha, fatal de novo, vítima de novo). Hilary Swank ganhou duas vezes o Oscar (por Meninos não Choram e Menina de Ouro), mas num papel de mulherzinha, e sexy ainda por cima, beira a ficção científica. Estou escrevendo da sucursal do Estado, no Rio, e alguém me pergunta como não gostei, se o filme está sendo consdiderado o melhor do De Palma em anos? Não quero nem pensar muito, agora, pelo menos, porque senão viou chegar à conclusão de que é preciso repensar toda a obra do diretor.