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Luiz Carlos Merten

01 Março 2010 | 11h47

Dei uma vista d’olhos na programação de cinema da cidade. Muita coisa que já vi, alguns filmes que gostaria de rever para tirar a teima. São filmes muito bem defendidos, mas dos quais não gostei – ‘Preciosa’, do Lee Daniels; ‘A Paixão Segundo B. Schianberg’, de Beto Brant; ‘Os Inquilinos’, de Sérgio Bianchi. Confesso que o experimentalismo de BB ora me atrai, ora me aborrece. “A Paixão’ retoma o tema do amor jovem de ‘Cão sem Donmo’, mas de forma mais fragmentada. Achei… Nem sei o quê – foi um filme que absolutamente não me pegou. Todo mundo tenta me convencer de que ‘Os Inquilinos’ é o melhor filme de seu diretor, mas eu empaquei naquela cena em que Marat Descartes vai na casa do vizinho, olha para a sua casa e vê, através da janela, a mulher que lhe lança aquele olhar, um sorriso enigmático, uma coisa muito desagradável que me levou a repensar o filme todo e aí fiquei me lixando para o tema da impotência da classe média (e do brasileiro perante a violência). ‘Os Inquilinos’ não é sobre isso, sorry. É sobre outra coisa, sobre aquele sorriso, que desmonta todo o discurso. Bianchi é outro que me cansa e fico até me sentindo mal por isso. Ele é sempre gentil comigo, me deu o DVD de ‘Os Inquilinos’ para que eu falasse do filme antes de todo o mundo, mas não deu. Fiquei bloqueado. O filme do Beto, o do Bianchi, o da Suzana Amaral – Elaine Guerini me contou como ela foi recebida com reverência em Toronto –, não consigo tirar nada deles. É tanta pretensão de ‘profundidade’ e eu fico achando que tudo aquilo é tábua rasa. Adoraria, honestamente, ter de pedir desculpas e dizer que estava (estou) errado. Não tenham dúvida de que o farei, se por acaso mudar de opinião sobre ‘A Paixão’ e ‘Os Inquilinos’. Sobre ‘Hotel Atlântico’, não houve jeito. Achei ainda menos interessante na revisão. Quero rever outros filmes porque gostei – ‘Khamsa’, de Karim Dridi; ‘Pachamama’, de Erik Rocha; e ‘O Segredo de Seus Olhos’, de Juan José Campanella. Karim Dridi é um diretor que me atrai por sua singularidade no cinema francês. ‘Pigalle’, ‘Bye Bye’, ‘Cuba Feliz’, nenhum de seus filmes se assemelha ao outro e a nada do que se produz na França. Dridi acaba de sofrer talvez o maior revés de sua carreira. Ele fez um filme de estrutura romanesca, ‘O Último Vôo’ (Le Dernier Vol), com Marion Cotillard e Guillaume Canet. De origem tunisina, Dridi partiu em busca do deserto, o que poderia ser interessante, como processo de (re)descoberta, mas o filme, planejado para ser o grande sucesso do fim de ano no mercado francês, foi atropelado pelo fenômeno ‘Avatar’ – estrearam juntos – e ficou muito aquém da expectativa, mais ou menos como ‘Lula, O Filho do Brasil’ no mercado brasileiro. Honestamente, não creio que o fracasso de público de um e outro se devam somente a isso, mas são possibilidades de avaliação. Por falar em (re)descoberta, é disso que também fala ‘Pachamama’, viagem cinematográfica metamorfoseada em documentário poético do filho de Glauber Rocha pela América Latina. Eryk documentou uma viagem que fez pelo Altiplano andino, visitando Bolívia e Peru – Pachamama quer dizer ‘mãe terra’ em dialético indígena. Ele tem uma assinatura muito interessante – faz um cinema plástico e é ótimo montador. Eryk também é um experimentador (da linguagem), mas ele tem o plus a mais, porque no seu caso me sinto tentado a interpretar as ideias que não são veiculadas de forma linear. Finalmente, Campanella. Gostei tanto de ‘O Segredo de Seus Olhos’ quando o vi no Festival do Rio… Havia entrevistado o diretor e ele é muito interessante. Campanella é profundamente argentino, mas não se sente, necessariamente, latino-americano. Uma contradição em termos? Diretor de episódios de séries nos EUA (‘Law & Order’ e ‘House’), ele não é deslumbrado, apenas acha que é um cara urbano e não existe tanta diferença assim entre Buenos Aires e Los Angeles. Espero continuar gostando desses filmes. Espero que vocês tenham gostado, também.

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