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Cultura » De novo, os Ursos

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Luiz Carlos Merten

17 Fevereiro 2007 | 21h16

BERLIM – Fui ver mais um filme, Fidel Cuenta el Che, daquele jornalista italiano, nao-sei-o-queh Mina, que fez o making of de Diarios de Motocicleta, de Walter Salles. Achei o filme muito interessante, embora imagine que vah receber a definicao de institucional de esquerda e, por isso, ser olhado com desconfianca pela imprensa dita isenta (mas que raramente eh). Depois fui jantar e tive tempo de pensar um pouco sobre a premiacao do 57.o Festival de Berlim, agora aa noite. Achei muito curioso que a critica tenha premiado um velho cineasta que volta apos longa ausencia, Jiri Menzel, com um filme do qual gostei muito, I Served the King of England (e acho que falando sobre ele, ontem, esqueci um detalhe dos mais importantes – eh muito divertido). O juri, que tradicionalmente eh mais prudente, apostou nos jovens. Tivemos, portanto, o que nao deixa de ser uma inversao. Uma critica conservadora e um jurih arrojado. Serah? Nao hah um soh talento estabelecido entre os varios que receberam os principais Ursos. O chines Wang Kuanan ganhou o de Ouro com O Casamento de Tuya, um filme bonito, do qual gosto bastante, mas que nao votaria para melhor da Berlinale. Tuya eh muito interessante com seu choque entre a modernidade e a tradicao. O diretor filma aquela Mangolia que parece parada no tempo, atada a velhos costumes, mas hah um mundo em convulsao e que a camera de Quanan flagra com grande poder de observacao. Nao acho que Tuya tenha sido o melhor, mas eh um bom, um belo filme. Aguarde para ver. Se ninguem comprar para distribuicao, Leon Cakoff, que tem um fraco por filmes mongois (O Estado do Cao – era assim que se chamava, nao?) dificilmente deixarah de levah-lo para a Mostra. Estive muito mais de acordo com o premio de direcao atribuido ao israelense Joseph Cedar, por Beaufort, um dos grandes filmes de guerra do cinema recente (e olhem que tivemos aqui em Berlim as Cartas de Clint Eastwood).Adorei os dois premios atribuidos ao representante da Argentina – El Otro, do Ariel Rotter. Julio Chavez jah merecia o premio de melhor ator desde El Custodio (O Guarda-Costas) e o diretor, agradecendo o premio especial do jurih, destacou a coragem de Paul Schrader (o presidente) e seus comandados, dizendo que eles foram no sentido do cinema de autor, do cinema miura, na contramao do cinema superproduzido, o de Hollywood (que nao eh soh aquele lugar nos EUA, mas uma concepcao, um conceito que se encontra ateh no Brasil). Tenho cah comigo, nao posso provar, que o jurih fez um trabalho de composicao. Schrader cometeu uma indiscricao e disse que Tuya se impos desde logo, com cinco votos num total de sete. Mas, ateh pela minha experiencia como jurado da Camera d`Or, acho que alguem apadrinhou o filme argentino (e espero que tenha sido Gael Garcia Bernal). Houve claramente uma composicao. O premio de melhor atriz para Nina Hoss nao se justifica de outra maneira. Elah nao eh ruim. Ruim foi o filme que terminou sendo premiado por causa de Nina – Yella, de Christian Petzold. Acho que houve composicao porque soh se o juri fosse louco para achar que Yella eh melhor que o outro concorrente alemao, The Counterfeiters. Mas eles queriam premiar um filme alemao e The Counterfeiters, mesmo sendo melhor, nao entrava na engenharia de premiacao. Teria de receber outra coisa – o de melhor direcao ou especial do jurih. Agora que a poeira baixou, tenho de dizer que gostei do festival – gosto sempre da Berlinale -, embora nao tenha gostado 100% da premiacao. O jurih deveria ter tido a coragem da critica e premiado o outro velho da competicao, Rivette, por Ne Touchez Pas la Hache. Mas, de novo, nao haveria como encaixar Rivette na composicao de forcas que resultou na premiacao. Acho que, para um evento associado aa politica, como a Berlinale, tivemos melodramas demais, mas, para ser honesto comigo mesmo, tendo de admitir que gostei de dois filmes particularmente discutidos. Teve gente que achou La Mome, sobre Edith Piaf, um dramalhao da pior especie. Um amigo italiano ficou surpreso quando disse que havia gostado dos irmaos Taviani e retrucou que La Masseria delle Allondole eh pura estetica televisiva. Essa gente deve estar brincando comigo, mas, no fundo, o bom do cinema estah na diversidade. E La Masseria nao eh TV coisa nenhuma. Aguarde, tambem, para ver.