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Luiz Carlos Merten

12 Junho 2011 | 12h22

Imobilizado em casa, tenho visto muitos filmes na TV paga e em DVD. O novo pacote da Versátil inclui ‘Um Caminho para Dois’, um Stanley Donen que amo, com roteiro de Frederic Raphael, sobre o casal Audrey Hepburn/Albert Finney que cai na estrada e refaz uma experiência da juventude, renovando a relação. A influência de Alain Resnais é mais do que clara, e isso era, continua sendo, muito interessante. A forma como, nos anos 1960, Hollywood incorporava a vanguarda europeia, legal. Gostei de (re)ver ‘Two for the Road’, mas o formato Cinemascope me fez falta. Confesso que me fez menos falta em ‘Avatar’, que vi na TV paga, talvez porque a superaventura de James Cameron opere mais na profundidade da imagem do que na largura e não me impediu de me projetar no filme, como sempre faço, pulando no sofá naquele combate final, que é de mestre. Quero dizer duas ou três palavras sobre ‘Velozes e Furiosos 4’, que também (revi) na TV paga. Bad movies I love. Meu amigo Dib Carneiro veio me visitar e eu não desgrudava o olho da TV. Ele me perguntou o que um filme com aquele diálogo pobre e aquela correria me acrescentava? Pois é, qual é? São os temas da amizade, da lealdade. Quando o entrevistei no Rio, por ‘Velozes e Furiosos 5’, o diretor Justin Lin me disse que o conceito do 4 era a lealdade e o do 5, a família., Aproveito para reproduzir um e-mail que o Dib me enviou, com um comentário do filho dele, o Heitor, no Facebook. Leiam.

“Não sou muito de postar críticas de filmes, ou textos enormes, aqui no facebook, mas hoje estava com vontade de escrever, e foi o que me veio à mente. Semana passada eu fui ao cinema ver Velozes 5. O filme é dispensável. Diálogo fraco, roteiro batido, atuações sofríveis. Até as cenas de ação são previsíveis. Mas outro dia me peguei lembrando de um diálogo em uma cena em particular que destoou do resto do filme, para o lado bom. Brian e Dom (Paul Walker e Vin Diesel) estão na varanda conversando sobre a memória que têm de seus pais – Brian tinha acabado de descobrir que sua namorada (a irmã de Dom) está grávida, e se preocupava com o tipo de pai que seria. Brian diz que não tem muita memória de seu pai, e tem medo de ser também um pai ausente. Dom, em resposta, conta que entre outras coisas, quando era criança, via seu pai todo dia ajudando a irmã com a lição da escola. E todo dia, depois que a menina ia dormir, o pai ficava mais algumas horas lendo para poder ajuda-la no dia seguinte. Não sei exatamente porque essa cena ficou comigo depois do filme. Talvez por demonstrar uma sensibilidade estranha ao estilo do filme, cheio de cenas rápidas e frases curtas. Já que estou falando do filme, vale citar também que ele me ensinou diversas coisas que eu desconhecia sobre nosso país: o subúrbio do Rio se parece muito com o deserto do Arizona; no Brasil o transporte ferroviário é algo comum, tanto para carga quanto passageiros; e que o chefe do crime organizado se chama Reyes (mas fala português, veja só).” 

Achei esse texto de Heitor Carneiro uma obra-prima de observação e generosidade, muito melhor do que os comentários de coleguinhas, do tipo ‘Fuja velozmente’. Pois eu também experimentei uma sensação parecida. Estava achando o filme um saco e aí veio aquela cena da varanda, que mudou tudo. Só que, ao contrário do Heitor, eu sei porque ela me bateu. Sou pai e gostaria muito, me esforço, mesmo com meus defeitos e limitações, para que um dia minha filha pense em mim com aquele carinho. Quando entrevistei Vin Diesel, falei na cena e o brutamontes disse uma coisa bonita. Era uma entrevista de grupo, Sidney Lumet havia morrido há pouco e alguém lhe perguntou sobre seu trabalho com o diretor. Diesel disse que agradecia a Lumet por ter olhado para ele sem preconceito, em busca do ator que ele (Vin) admitiu que nem sabia que conseguiria ser. Falou sobre Sidney Lumet como um pai, mas não substituto, porque o dele está vivo e é muito atuante, até hoje, na minha vida. Aquela cena da varanda pode destoar em ‘Velozes e Furiosos 5’, como diz o Heitor, mas não, porque ela marca a virada do filme e aí, com todo o ruído, as explosões, as pancadarias, o importante, até o fim, é a família. Gostar ou não gostar, é uma escolha. Fugir velozmente, para não ofender ninguém, não vou dizer o que penso que seja.