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De Método e Refeição

Luiz Carlos Merten

23 Abril 2007 | 09h32

Fui ver duas peças neste fim de semana. Sei que vocês não ligam quando falo de teatro, mas là vou eu. Uma delas foi O Método, com Lázaro Ramos e Taís Araújo, que serviu como ponto de partida para o filme O Que Você Faria?, do Marcelo Piñeyro. Ambos, peça e filme, tratam do método de seleção de candidatos a uma vaga de executivo numa firma importante. O jogo é sujo, já que o objetivo é mostrar que o mundo globalizado é competitivo até o último grau. A lei da selva disfarçada de civilidade, ou como diz uma personagem explicando o perfil do candidato ideal para a vaga – um filho da p… que pareça bom moço. Quando entrevistei o Piñeyro, ele me disse que a peça era um ‘vodevil’, com final surpresa, mas que não lhe interessou esse lado de comédia e ele preferiu criar um drama contemporâneo, fazendo as modificações necessárias, neste sentido. A platéia quase morria de rir vendo O Método. Eu meio que me engasguei. Prefiro o tom do filme. A outra peça foi A Refeição, do Milton Moreno, que já havia escrito Agreste. Achei o texto muito forte, um ensaio em três partes sobre a antropofagia nas relações interpessoais e políticas. Começa com um casal comendo, literalmente, partes um do outro, prossegue com um executivo comendo (em todos os sentidos) um mendigo e termina com uma pesquisadora tentando se apossar da oralidade de um índio que está morrendo (e com ele se irão a língua e as tradições de sua tribo). Havia bem menos gente vendo A Refeição, no Sesc Santana. Fazer o quê? A peça é muito mais exigente do que O Método, cujo naturalismo é mais digerível (para continuar na antropofagia). É incrível, mas o público de teatro tem essa fama de ser mais elitista e reflexivo. Não sei, não.