Luiz Carlos Merten

30 Março 2016 | 00h23

Havia comprado em Bogotá um livro sobre a ligação (e o rompimento) entre os escritores Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Referi-me a ele na reunião de pauta do Caderno 2 prévia ao aniversário de 80 anos de Mario, na segunda, 28. Meu editor, Ubiratan Brasil, encomendou-me um texto. Pensei que era sobre o livro, um box para um texto maior sobre os 80 anos e, quem sabe, alguma análise da complexa trajetória de Mario. No final, por problemas de espaço, ficou só o meu texto, que redigi de Cuzco, no sábado à noite, com a cabeça voltada para Batman Vs. Superman, que havia visto pouco antes. Para complicar, esqueci-me de levar o livro. Achei que seria fácil encontrar referências na rede. Lancei todas as chaves. Nada encontrei. Citei no meu texto Gabriel y Mario. O livro é De Gabo a Mario, de Ángel Esteban e Ana Gallego, Editorial Espasa Calpe, de Madri. Os autores fazem um levantamento do boom latino-americano. Gabo e Mario tiveram tudo. Escreveram os romances mais importantes em língua espanhola do século passado, ganharam os maiores prêmios (o Nobel, os dois), assinaram contratos milionários. Foram grandes amigos, e a amizade resistiu às divergências ideológicas. Mario começou à esquerda, como Gabo, mas rompeu com a revolução cubana e se ligou à direita liberal. Gabo permaneceu alinhado com Cuba (e os Castro). O que os dividiu não foi isso, mas uma questão pessoal. Naquele 12 de fevereiro de 1976, no Palacio de Bellas Artes da Cidade do México, na première de La Odisea de los Andes, de René Cardona, no qual colaborara Vargas Llosa, Mario nocauteou García Márquez com um soco que o jogou por terra, sangrando. Até hoje, as testemunhas discutem se Mario justificou o fato dizendo que era pelo que Gabo havia dito (ou feito) a sua mulher, Patricia. Continuaram respeitando-se como intelectuais, mas a amizade rompeu-se para sempre. Ocorreram tentativas de reconciliação, feitas por terceiros. Chocaram-se com a intransigência da mulher de Gabo, Mercedes, que explodia de cólera ante qualquer menção ao nome de Patricia. Em 2007, quando o autor de Cem Anos de Solidão fez 80 anos, amigos comuns tentaram mais uma vez reaproximá-los. Mercedes foi dura – “Vivemos tão felizes esses 30 anos que não os necessitamos (a Mario e sua mulher) para nada.” Acabo de ler os capítulos finais de De Gabo a Mario. São de chorar. Recomendo vivamente. Dois gênios, uma amizade rompida. Não creio que exista, na história da literatura, outra situação parecida. Na música, talvez – Lennon e McCartney, e aqui também uma figura feminina (Yoko Ono) foi decisiva no processo de separação. Espero que não me acusem de misoginia por isso. De Gabo a Mario é um raro ensaio que se lê como um romance. Ángel Esteban e Ana Gallegos são professores na Universidade de Granada. Cada um tem mais títulos, doutores nisso e naquilo, que caberiam no espaço desse post. Não ficaria bem comigo mesmo se não fizesse o registro (e a correção). Se fosse um texto sobre a importância do autor de Conversas na Catedral e Pantaleão e as Visitadoras – os meus preferidos -, teria de ser outro. O que me interessa é esse viés unindo/desunindo Gabo e Mario. De dois artistas tão especiais, era de se esperar que tivessem o discernimento e a grandeza de tudo superar. Seria esperar demais da frágil natureza humana.