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Cultura » De ‘Francisco’ a Altman

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Luiz Carlos Merten

13 Junho 2008 | 12h25

Fábio Nunes me ofende perguntando se é o salário, o dinheiro que cai na conta do fim do mês, que me leva a falar, entre um Godard e outro, de ‘2 Filhos de Francisco’? Pode ser que seja limitação de classe, como tu mesmo dizes, Fábio. Dinheiro é que não é, com certeza. E, para te escandalizar bastante, gosto muito de vários filmes de Godard – daqui a pouco vou falar sobre ‘Pierrot le Fou’ (O Demônio das Onze Horas), atração de amanhã da Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco -, mas gosto mais de ‘Francisco’ que de certos filmes de Godard. Fazer o quê? Cada um com seus defeitos, ou problemas… Mário Kawai chama a atenção para alguns programas da mostra ‘As Muitas Vidas de Robert Altman’, no CCBB. Mário conta, o que não sabia, que Altman dizia ter feito seu documentário ‘The James Dean Story’, em cima da hora – o filme é de 1957, Dean morrera no ano anterior -, para atacar o mito que começava a se estabelecer, mas à medida que investia contra o astro descobria que ele era genial e ia sendo ‘cooptado’. Legal – então não foi por dinheiro da Warner caindo na conta dele? Brinco, claro. O que quero dizer é que em 1982, 35 anos depois, quando estava numa fase complicada de sua carreira – montando peças que depois dirigia e voltando à TV -, Altman regressou a James Dean e fez ‘O Mito Sobrevive’, que no original se chama ‘Come Back To 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean’. Acredito que o filme também esteja na programação do CCBB, só não sei se já passou (ou se vai passar de novo). É uma adaptação da peça de Ed Graczyk sobre amigas texanas que se reúnem para lembrar seus verdes anos, quando corriam atrás de Dean, que filmava ali perto o clássico ‘Giant’ (Assim Caminha a Humanidade), de George Stevens. Sandy Dennis, Cher, Karen Black, Martha Heflin e Kathy Bates estão no elenco. Entre acertos de contas, surgem revelações, algumas dolorosas, sobre aquela fase da vida de todas. Embora Leonard Maltin, em seu guia de filmes, considere o material ‘second rate’ – de segunda mão , há algo no filme (as atrizes? O corpo-a-corpo do diretor com o texto teatral?) que me toca e ele termina me dizendo mais coisas do que outros filmes ‘consagrados’ da fase final de Altman.