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Cultura » De Emily a Aldrich, um longo caminho

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Luiz Carlos Merten

11 Abril 2008 | 12h05

Emily Mortimer é bonita, classuda e tem belas pernas, o que diretores como Woody Allen não se preocuparam em mostrar. Conversei com ela sobre ‘Redbelt’ e a Emily rebateu que David Mamet seja um dramaturgo de grandes papéis masculinos, somente. A personagem dela no novo filme do roteirista e diretor é muito bem escrita, embora não se expresse tanto pelas palavras e sim pela tensão do corpo, que passa o sentimento (nervosismo?) das mulheres que já sofreram abuso – Emily foi estuprada no filme. Ela pertence àquela caqtegoria de atrizes – Vanessa Redgrave, Liv Ullman – que fala olhando nos olhos do interlocutor. Imagino que seja um saco para muita gente ficar dando entrevista e repetindo sempre as mesmas respostas, mas depende muito da disponibilidade do entrevistado mudar o rumo da conversa. Se eles não se ligam, a coisa fica burocrática (e desinteressante para todo mundo). Emily dá importância ao que está dizendo (e ao que está sendo perguntado), o que estimula a gente a aprofundar o que vira um verdadeiro diálogo. E ela tem um belo sorriso. Vou fazer agora fazer uma daquelas associações que desconcertam tantos de vocês, que dizem que eu gosto de misturar alhos com bugalhos, mas é pegando carona no tema do estupro. Vi agora na TV norte-americano um filme sobre mulheres estupradas nas guerras tribais da África. Achei impressionante o depoimento de um daqueles caras que diz que estupra, sim, acrescentando que ele busca nos fluidos das mulheres violadas – mas ele não explica com essas palavras – a energia vital para o combate. O cara vai adiante e chega a dizer que é um ato de patriotismo a mulher deixar-se violar, embora ele também diga que mataria os violadores de sua mulher e irmãs. Prosseguindo com as minhas associações malucas, me lembrei de um grande western (subestimado) de Robert Aldrich, ‘A Vingança de Ulzana’, no começo dos anos 70. Aldrich havia feito aqueles westerns superfamosos nos anos 50, ‘O Último Bravo’ (Apache) e ‘Vera Cruz’, os dois com Burt Lancaster, mas eu me arrisco a dizer que ‘Ulzana’, também com Lancaster, é o melhor de todos. O filme trata da caçada da Cavalaria a este chefe índio que fugiu da reserva e está matando e pilhando. Bruce Davison é o oficial e Lancaster o batedor da Cavalaria. Numa cena, Lancaster conversa com um índio aculturado que também serve à Cavalaria. O personagem chama-se Kenitay, nunca esqueci. E Kenitay explica porque Ulzana viola, mata e escalpela. Porque, segundo ele, esta é uma forma de apaziguar seus demônios e de assumir a energia do inimigo. Era exatamente o que dizia o soldado africano do documentário que vi na TV. Duas culturas primitivas, de raças diferentes e separadas por um oceano, compartilham as mesmas crenças. Antropologicamente, fascinante. No caso do western de Aldrich, maravilhoso. Os críticos falam muito em filmes que tentam expor o ponto de vista do outro. ‘Ulzana’ é imbatível, e feito numa época em que Aldrich usava a conquista do Oeste – como havia usado anteriormente o filme de guerra – para refletir sobre o Vietnã sem se referir diretamente ao assunto, porque não havia clima para isso no cinemão da época.