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Cultura » De Dustin para a Mostra

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Luiz Carlos Merten

20 Outubro 2006 | 12h18

Aqui estou eu de novo, de Londres. Fiz há pouco as entrevistas com o pessoal de Stranger Than Fiction, os atores Emma Thompson e Will Ferrell. Dustin Hoffman participou somente de uma miniconferência, programada para durar 45 minutos, mas eu fiz a última pergunta e ele demorou 20 minutos (quase) para responder, o que levou sua assessoria à loucura. Todo mundo fazia sinal para ele parar e o cara falava, falava. Conto em detalhes, depois, mas a caminho da suíte em que falaria com Emma e Will fui tomar um café. Chegou o Dustin e me deu o maior abraço e um beijo, mais tarde eu explico por quê. Uma curiosidade é que, no meio da conversa, ele disse qual o filme de que mais gostou ultimamente. Não, não foi o que ele fez, embora goste bastante de Stranger Than Fiction, dirigido pelo Marc Foster, com quem havia feito Em Busca da Terra do Nunca. O filme que ele citou como seu preferido estréia hoje em São Paulo e, na corrida para prestigiar a Mostra, você se arrisca a perdê-lo: é o ótimo Pequena Miss Sunshine. Uma família cai na estrada. Você já viu este filme, feito por um argentino – Família Rodante, de Pablo Trapero. Os personagens são todos aqueles que já viraram clichês em filmes independentes americanos – o pai fracassado, a mãe que segura as pontas, o tio gay, o irmão revoltado. Só vendo para crer como Miss Sunshine consegue renovar tudo isso com graça e inteligência. Para isso contribui a protagonista, a garotinha, feinha mas muito charmosa, que quer ser Miss Sunshine. De volta a São Paulo e à Mostra, você tem muitas atrações à disposição nesta sexta-feira, primeiro dia do evento para o público. Tem Almodóvar, Volver; tem Ken Loach, The Wind That Shakes the Barley; tem Karim Ainouz, O Ceu de Suely, maravilhoso; e os filmes da retrospectiva do cinema político italiano, incluindo Investigação Sobre Um Cidadão, de Elio Petri, e Só Resta Esquecer, do Damiano Damiani, que passam logo de cara. É impossível dizer a um cinéfilo que não veja esses filmes, mas o de Almodóvar já vai estrear. A Mostra está cheia de pré-lançamentos, filmes que se beneficiam da sua vitrine para ganhar exposição junto ao público. Vou recomendar, como os imperdíveis de hoje, dois filmes latinos de língua espanhola – El Custodio, que é belíssimo, e o Don Quixote do catalão Alberto Serra, Honor de Cavalleria, que quase tive uma comoção quando vi em Cannes, como jurado da Camera D`Or. Num certo sentido, o filme é uma pedreira. Quem disse que o cinema tem de ser fácil? O que tem ali de beleza beira o inacreditável.