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Luiz Carlos Merten

10 Agosto 2009 | 18h47

GRAMADO – Alguém, e foi uma mulher, tenho certeza, comentou outro dia que saiu em DVD ‘O Fundo do Coração’, um grande Coppola. É verdade. Antônio Gonçalves Filho fez o texto no ‘Caderno 2’ e eu pensava em repercuti-lo aqui no blog, não propriamente o texto, porque, afinal, não o li, mas o lançamento. ‘O Fundo do Coração’ é do começo dos anos 80, depois que Coppola recebera sua segunda Palma de Ouro em Cannes (por ‘Apocalypse Now’). O filme adaptado de Joseph Conrad (‘O Coração das Trevas’) foi o delírio de um grande autor megalomaníaco, sendo imprescindíveis, para completá-lo, a análise de Elaine Showalter em seu livro sobre cinema e literatura (‘Anarquia Sexual’) e também o documentário ‘O Apocalipse de Um Cineasta’, que utiliza material colhido pela mulher de Francis Ford, Eleanor, para traçar o retrato de um artista enlouquecido por sua criação. Sei que depois do projeto desmesurado de ‘Apocalypse’, Coppola quis fazer um filme menor e esse filme foi justamente ‘One from the Heart’. Só que ele resolveu fazer seu filme em vídeo, convencido, quase uma década antes de Steven Soderbergh (‘sexo, mentiras e videotape’), de que o futuro do cinema estava nas novas tecnologias. Coppola inflou tanto o projeto com seu experimentalismo cênico que o filme ‘pequeno’ levou sua empresa Zoetrope à bancarrota, da qual ele saiu fazendo projetos de encomenda (suas adaptações de Susan Hinton). Nunca tive ‘amor’ por ‘O Fundo do Coração’. Gosto do filme, bem entendido, acho-o arrojado, mas alguma coisa me incomoda nele, me trava, e talvez seja a leitura que faço. Já escrevi aqui, em algum momento, que Woody Allen, em ‘Match Point’, cujo título em português sempre esqueço, refez ‘Um Lugar ao Sol’, mais influenciado, talvez, pelo romance de Theodore Dreiser (‘An American Tragedy’) do que pela adaptação que dele retirou George Stevens. ‘O Fundo do Coração’ também refaz outro Stevens, ‘Jogo de Paixões’ (The Only Game in Town), que o grande George dirigiu no fim dos anos 60, com Elizabeth Taylor e Warren Beatty. O filme foi fracasso de público e crítica, tendo uma produção conturbada. Frank Sinatra, que seria mais adequado para o papel do jogador cínico, abandonou a produção e Stevens, em cima da hora, teve de improvisar outro ator, escolhendo o irmão de Shirley MacLaine, que vinha de um clássico transgressor, ‘Bonnie & Clyde’. Sendo a comparação inevitável, ‘Jogo de Paixões’ foi considerado anacrônico – no mínimo… -, num momento em que a década se encerrava com som e fúria. A mudança de ator foi apenas um dos problemas que Stevens teve de administrar. Liz, sua atriz fetiche – ‘Um Lugar ao Sol’ e ‘Assim CAminha a Humanidade’ -, não quis filmar nos EUA, para ficar com Burton, que fazia não me lembro que filme ou peça na Europa. Stevens, então, reconstruiu inteiramente Las Vegas em estúdio, convencido de que a cidade é fake e não faria diferença alguma. Coppola, mais de uma década depois, também reconstruiu Las Vegas em estúdio para contar a história de amor de outro jogador e outra corista. Em ambos os filmes, um avião desempenha um papel decisivo na solução do drama. Aceito que, apesar das semelhanças, ambos os filmes são muito diversos, mas sempre me incomodou o excessivo desprezo da crítica por ‘Jogo de Paixões’ e o também excessivo, por outro lado, reconhecimento de ‘O Fundo do Coração’, que me parece um filme ‘menor’, a despeito do tamanho que adquiriu. Stevens fez do seu jogo de paixões uma sonata para Liz e Beatty, recriando a musicalidade dos primeiros planos da cena famosa do beijo em ‘A Place in the Sun’. Coppola abriu mais seu filme, criando novos interesses (românticos?) para Frederick Forrest e Talia Shire – Nastassia Kinsky, a equilibrista, e Raul Julia, o amante latino. Estou escrevendo este post sem ter revisto ‘O Fundo do Coração’. Espero fazê-lo ao voltar a São Paulo e sossegar um pouco. Mas não queria deixar de registrar uma impressão antiga e abrir espaço para que vocês se manifestem. Estou tentando me lembrar agora que Truffaut também recebi, em DVD, e que mal tive tempo de retirar do envelope, ao passar rapidamente por casa, entre dois roteiros tão diferenciados (Cancun e a serra gaúcha). O Truffaut em questão, da Versátil, é ‘O Último Metrô’? Creio que sim. Truffaut, por sinal, é citado por Sérgio Silva em ‘Quase Um Tango’, que abriu ontem a competição brasileira do 37º Festival de Gramado. Não tive tempo de participar do debate sobre o filme, hoje pela manhã. Havia ido ao Gramasdo Cine Vídeo para ver ‘Giro’, de Ângelo Antônio – bem bom -, e, quando cheguei, haviam muitos inscritos no debate. Desisti, porque tinha de enviar correndo meu texto para o ‘Caderno 2’ de amanhã. Encontrei depois o diretor – meu amigo, a quem conheci por meio de Tuio Becker, que, no sábado, lembrei-me disso o dia todo, estaria ‘de’ aniversário, como se diz no Sul. Disse para o Sérgio que gostei do filme dele e que, talvez, ‘Quase Um Tango’ seja até muito melhor do que me pareceu. Porque muita coisa conspirava contra, ontem à noite. A projeção digital me pareceu péssima. As cenas norturnas, a do puteiro, pareciam borrões; nas solares, as cores estavam lavadas; o som estava sempre dez decibéis acima e o elenco carioca exagerava no gauchês. Poderia ter sido um desastre e o filme sobre a simplicidade das coisas da vida, como o definiu o próprio Sérgio, me tocou de um jeito particular. Para o bem e para o mal – para o bem, para mim -, não existe outro filme como ‘Quase Um Tango’ no cinema brasileiro recente.