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Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2007 | 13h57

Já fui chamado de muita coisa na vida, agora de ‘Carmen Miranda petista’, como me rotula o Sérgio, é novidade. Não entendi nem o que ele está querendo dizer, um pouco porque, ao contrário de Woody Allen, que a homenageou em ‘A Era do Rádio’, e de Ruy Castro, que lhe dedicou uma biografia, não sou muito fissurado pela mais brasileira das estrelas hollywoodianas (ou a mais hollywoodiana das estrelas brasileiras)? Acrescentar ‘petista’ à classificação que já me parece absurda vira o maior nonsense. Nunca tive vinculação partidária, mas meus colegas petistas, pelo menos os de Porto Alegre, teriam gostado de me ver morto há 20 anos. Tirando a lavagem de roupa suja – e eu paro -, confesso – e o blog é meu – que tenho pena de gente como o Sérgio, refém do próprio preconceito, metamorfoseado em pensamento ideológico. Há pelo menos 40 anos, desde que comecei a escrever sobre cinema no mural da Falcudade de Arquitetura de Porto Alegre, sou, para o bem e para o mal, o que se chama de livre atirador. Falei mal do esmagamento da primavera de Praga pelos tanques soviéticos e, dentro dos meus limites, sustentado por um diretor de redação que fazia vistas grossas ao que eu escrevia – o Professor (com maiúscula) Ruy Carlos Osterman, na antiga ‘Folha da Manhã’ -, usei um filme proibido no Brasil, mas que havia assistido no Uruguai – ‘Estado de Sítio’, do Costa-Gavras – para falar de tortura, em plena ditadura. Também era contra a Guerra do Vietnã e escrevi um texto que acho que se perdeu, no qual perfilava Jane Fonda como a mais bela imagem do protesto nos EUA, por volta de 1970. Se tivesse de escolher um só texto, entre os milhares que escrevi, acho que seria aquelwe, publicado num suplemento que Jefferson Barros, então editor de Internacional da Folha da Manhã, editou quando foi assinada a paz. Chamava-se (o suplemento) alguma coisa como ‘Os tambores da guerra e os gongos da paz’. Mas se há uma coisa que não sou é burro. A União Soviética, o tal de comunismo, era uma m… para os russos, mas punha um limite ao poderio americano que hoje não existe mais e eu morro de pena de gente que me diga que o mundo atual, do jeito que está formatado, é o mundo de seus sonhos. Se continuar sonhando com um mundo minimamente humanista é coisa de Carmen Miranda petista, bem, lá vou eu. Mas à Carmen de Chica-bum, Chica-bum, vou sempre perferir aquela que vestia a camisa listrada e saía por aí…