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De Bergman e pancadaria

Luiz Carlos Merten

31 Março 2009 | 13h34

Vivendo e aprendendo. Estava fazendo uma página de lançamentos em DVD para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’. Peguei um Bergman, ‘O Ovo da Serpente’, e um Rossellini, ‘Descartes’, mais lançamentos de um perfil popular. Esse Bergman me interessa particularmente porque nunca foi considerado top de linha do diretor. Bergman havia se envolvido naquele rolo com o fisco sueco. Ameaçado de cadeia – pelo crime de sonegação de impostos -, humilhado, ele se exilou na Alemanha, onde fez dois filmes – ‘O Ovo’ e ‘Da Vida dos Marionetes’ -, só regressando após ser inocentado num processo que moveu contra o Estado. Sempre considerei ‘Da Vida’ um grande Bergman. Tive um choque quando vi o filme, mas ‘O Ovo’… Como todo mundo, achava o filme diferente, um Bergman mais político, engajado, num momento em que o ressurgimento do fascismo e do nazismo tiravam o sono de grandes artistas. A preocupação começara com Visconti em ‘Os Deuses Malditos’, prosseguiu com Bertolucci em ‘O Conformista’, com Liliana Cavani em ‘O Porteiro da Noite’, Pasolini em ‘Saló’ e, entre outros diretores/autores, chegou ao Bergman de ‘O Ovo’, que me parecia, comparativamente, ‘menor’ (esse Bergman específico, não o cineasta, claro). No ano passado, quando estive na Suécia para a Semana Bergman, ocorreram aquelas ‘lectures’ sobre a obra do diretor, em Farö. Nem me lembro quem – um desses doutores de cinema – disse uma coisa que me marcou muito. Bergman, em ‘O Ovo da Serpente’, bancou o futurólogo do passado, tentando interpretar a gênese do nazismo. Só que ele mirou no nazismo e, na verdade, deu uma de visionário e, segundo o tal especialista, acertou em outro alvo – o filme antecipa a gênese do neo-liberalismo econômico e das finanças globalizadas, por meio da importância atribuída ao capitalismo apátrida, ao dinheiro (que nunca foi mais importante no cinema de nosso querido Ingmar). Taí uma leitura que me parece bem interessante, mas, ao falar de DVD, quero chegar agora ao que interessa. Temos, no ‘Caderno 2’, um quadro de mais retirados, que é feito pelo InformEstado. O décimo filme mais retirado da semana, nas locadoras de São Paulo, foi ‘Ong Bok 2’, sequência do filme cult tailandês de lutas que havia sido lançado em DVD com o título de ‘Guerreiro Sagrado’. Vocês sabem que adoro uma pancadaria no cinema – ontem, ao voltar de São Bernardo, fui comer e havia uma televisão no restaurante, ligada na Globo. Revi a espetacular cena de luta de Jason Statham no desfecho de ‘Carga Explosiva 2’, quando ele, na oficina, lança mão dos recursos disponíveis para enfrentar uma gangue de malfeitores. A cena, coreografada pelo especialista Cory yuen, que dirigiu o primeiro filme, é do cara… Não vi ‘Guerreiro Sagrado’ e nem sabia da existência de ‘Ong Bok 2’, dirigido pelo astro de muai thai, Tony Jaa. Vale a pena? Estou perdendo alguma coisa? Ou volto ‘tranquilito’ para o meu Bergman? Com vocês, a palavra.