Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » David Lynch, chato transcendental?

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2008 | 13h12

Daniel Bottoni aproveita meu post sobre Fernando Meirelles no ‘Roda Viva’ para perguntar sobre outro programa que teria sido feito com David Lynch. Pois é – fiquei surpreso ao ouvir naquela noite da gravação, na segunda-feira, que o programa do Lynch ainda não teria ido – não foi – ao ar. Não sei dizer por quê, mas ouvi os mesmos comentários que me foram feitos quando perguntava sobre ele no seminário ‘Fronteiras do Pensamento’, em Porto. Lynch veio ao Brasil para divulgar seu livro sobre meditação transcendental e só queria falar sobre isso, mesmo que o interesse maior das pessoas – a bancada de entrevistadores no ‘Roda Viva’, o público no seminário da Copesul em Porto Alegre – fosse pelo cinema dele. Sobre Lynch, já disse que é um diretor – um autor – que não me interessa muito. Gostava de seus primeiros filmes – ‘O Homem Elefante’, ‘Veludo Azul’ -, gostei particularmente de ‘História Real’, o menos ‘bizarro’ de seus filmes, mas nunca me empolguei muito com “Twin Peaks’, a ponto de haver abandonado a série, quando passava na TV. ‘Estrada Perdida’ mais me aborreceu do que fascinou e, no caso de ‘Império dos Sonhos’, acho que ele realmente viajou demais na maionese. Tem gente que se esgota na busca de um sentido para aquela pantomima toda, mas eu confesso, sorry, que acho um tédio e não me sinto minimamente tentado a decifrar o enigma obscuro daquela família de coelhos. Para completar, a Laura Dern morrendo na Calçada da Fama em Hollywood foi demais para mim, mesmo que tenha me impressionado muito a quantidade de sem-teto que a gente encontra no Hollywood Boulevard, um espaço que, neste sentido, transforma o sonho americano no maior pesadelo. Não sei, mas tenho para mim que o maior problema do Lynch tenha sido deixar de ser um autor para virar um ‘gênero’. Ele sabe que há expectativa por um certo tipo de situação ou personagem em seu cinema – lá vou eu falar de bizarrice, de novo – e não se reinventa. Ando de saco-cheio com os filmes dele, mas sei que tem gente que adora.