Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » David Lean

Cultura

Luiz Carlos Merten

27 Março 2008 | 00h08

Estou postando de casa, quase meia-noite, o que significa que quando salvar este post já será amanhã e, portanto, o centenário de David Lean terá sido ontem. Se eu gosto de David Lean? Confesso que não sou muito atraído pelo David Lean da primeira fase, com Noel Coward, nem o das adaptações de Charles Dickens, mas gosto de ‘Desencanto’ (Brief Encounter) e ‘Papai É do Contra’ (Hobson’s Choice). O David Lean que eu amo é o autor dos épicos intimistas e, dentro desta fase, o de ‘A Ponte do Rio Kway’, ‘Lawrence da Arábia’ e ‘Passagem para a Índia’. Confesso que tomei um choque ao descobrir, lendo um livro sobre Andre De Toth, que o cineasta de origem húngara, agregado à equipe de ‘Lawrence’, foi responsável por um dos mais belosd planos do filme – aquele em que Peter O’Toole se pavoneia no alto do trem e a luz do sol é filtrada através de seu manto branco. Lean não gostava da idéia e De Toth teve de insistir muito para filmá-la, mas quando o diretor viu o resultado a cena foi incorporada à montagem final do filme. David Lean deu tratamento político ao tema da alienação, que Michelangelo Antonioni tratava do ponto de vista existencial (ou ‘ontológico, segundo a filosofia). Seu tema, nos épicos, é a alienação humana em períodos excepcionais, de grande confusão social e humana, como são as revoluções. Acho risível o desfecho dfe ‘Doutor Jivago’, aquela história da balalaica de Rita Tushingham e o arco-íris desenha sobre a represa, representando o futuro da União Soviétca, mas ‘Lawrence’ é maravilhoso. As cenas do desero são deslumbrantes e eu também gosto muito de ‘Passagem para a Índia’, especialmente de duas coisas – a exasperação do colonizador perante o colonizado, que Lean transmite através do olhar de Dame Peggy Ashcroft (que ganhou o Oscar de coadjuvante pelo papel); e a cena em que Adele Quest (Judy Davis) encontra os relevos eróticos no templo perdido na floresta. Quando o Dr. Aziz lhe pergunta o que houve, pois ela está visivelmente perturbada, Adele responde – ‘Nada’, mas poderia responder ‘Tudo”. Lean foi grande e eu só lamento que ele não tenha podido filmasr ‘Nostromo’, de Joseph Conrad, como queria.