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Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2011 | 22h32

RIO- No domingo,indo para a surcusal do ‘Estado’, fui abordado por um sujeito com cara de desesperado. Identificou-se como argentino, perguntou se eu o entendia. Respondi em espanhol e ele emendou uma história cumprida, sobre dificuldades. Disse que tinha mulher e filhos no hotel, não tinha o que comer etc. Coloquei a mão no bolso, onde deixo o dinheiro solto e terminei tirando uma nota não exatamente graúda, mas de qualquer forma razoável.Achei que não tinha cabimento puxar todo o dinheiro do bolso e, na cara do sujeito, tentar me organizar. Dei-lhe a nota e ele se escafedeu, provavelmente com medo de que eu pedisse de volta. Hoje pela manhã, quase no mesmoponto, em plena Av. Rio Branco, outro cara me abordou. Disse não, mas ele estava com tanta cara de desesperado – e faminto – que fiquei me remoendo de culpa. O centro estava conflagrado, ruas fechadas, ambulâncias com sirenmes ligadas e eu só compreendi o que se passava ao chegar a redação e assistir, pela TV, às imagens da explosão na Praça Tiradentes. Foi o que faltava para me desnortear de vez. Impressionou-me, especialmente, aquele cara de camisa branca que, na hora exata doacontecido, passava pelo local e foi atingido pelo deslocamento de ar e pela quantidade de dejetos lançados pela explosão. Santo Deus! O homem certo no momento errado – no momento errado. Fiquei com aquilo na cabeça. A efemeridade da vida, das coisas. Fiz rapidamenteminhas matérias para a edição de amanhã, privilegiando o documentário ‘Mentiras Sinceras’, na Première Brasil, e ‘Finisterrae’, vencedor do Festival de Roterdã, na mostra Midnight. “Mentiras’, de Pedro Asbeg, produção de Cavi Borges -o Roger Corman brasileiro, segundoInácio Araújo -, é sobre os bastidores da montagem de ‘Mente Mentira’, que vi em São Paulo. Alguém, me soprou no ouvido que era o ‘Moscouzinho’ e eu terminei incorporando a definição, não como uma coisa pejorativa, mas carinhosa, e neste sentido poderia ser, também, um pouco ‘Riscadinho’. Com um pouco menos de música na trilha,  teria gostado demais. Avancei os filmes na TV de domingo, almocei e corri para o Windsor Atlântica, para a entrevista com Dario Argento. Despejei no pai de Asia um pouco da angústia que estava sentindo, aquela opressão da morte, da tragédia, do inevitável. Achei a entrevista bem legal, mas creio que parte dela, o começo, pelo tom confessional, será difícil de usar. Ainda no hotel, conversei rapidamente com Karin Ainouz, que começa a filmar em fevereiro e já era tempo de correr ao Odeon, para ver Eduardo Coutinho, ‘As Canções’. Encontrei João Moreira Salles, que foi prestigiar a sessão, e o provoquei. Disse que ele tinha de ler o admirável texto de Enéas de Souza em ‘Tela e Divã’ – é assim que se chama o livro do artes e Ofícios, minha editora de Porto, que trata da relação entre cinema e psicanálise -, para entender o que fez em ‘Santiago’. Sorry para quem prefere ‘Cabra Marcado para Morrer’, mas eu sou mais ‘Santiago’ e o Enéas vai fundo na complecidade não apenas estética, mas política e social da abordagem de classe dentro do filme. Foi o tipo da piada que João levou numa boa, mas que eu não pusaria fazer com o irmão dele, Walter Salles. E chegamos a Coutinho. Por mais interessante que me parteça a ideia de ‘Moscou’, não sou muito fã do filme. Já o ‘Canções’ me apanhou na hora e me lançou num vendaval de emoções. De novo o post está grande. Tento explicar no próximo.