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Daqui a pouco, “Joe”

Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2010 | 10h25

BUENOS AIRES – Olá, aqui estou desde quarta a noite, sem dar notícias. Vim porque a capital argentina é a sede do festival 4 + 1 e, como tal, aqui está o convidado de honra deste ano do evento promovido pela Fondación Mapfre. Entrevistei ontem Apìchatpong Weerasethakul, que quando me viu fez a cara de “conheÇo este cara”. Expliquei-lhe que nos havíamos encontrado em Cannes, em maio. Ele mostrou ontem “Tio Boonmee” e, precedendo a exibiÇao, agradeceu a Lucrecia Martel, que o ciceroneou em Buenos Aires (e ela estava na plateia do Malba, museu que abriga o 4 + 1 por aqui). Daqui a pouco, “Joe”, como é chamado, dá uma master class, que nao pretendo perder. Mas nao posso deixar de chamar a atenÇao de voces para a programaÇao de hoje do festival em Sao Paulo, onde rola na Cinemateca Brasileira. É coisa de se mudar para lá e pertmanecer o dia todo. ComeÇa às 13h30 com “Independencia”, de Raya Martin, às 17 horas tem “Irène”, de Alain Cavalier, e às 21 horas, “Um Barrage contre le Pacifique”, de Rathy Panh. Este último é uma adaptaÇao do romance de Marguerite Duras que, em 1958 ou 59, foi filmado por René Clément. O filme se chamou no Brasil “Terra Cruel” e nao era bom, apesar do diretor e do elenco de prestígio (Jo Van Fleet, Silvana Mangano etc). A versao do cambojano Panh também nao representa o melhor do autor, mas acho que é uma circunstancia rara e muito forte para ser perdida. “Barrage” trata do colonialismo frances na antiga Indochina, centrado numa matriarca que ve seus filhos crescidos partirem, ao mesmo tempo que luta contra a burocracia e a natureza hostil, contra as águas que ameaÇam invadir suas terras. Sempre achei que o livro de Duras tinha material para um grande filme de Elia Kazan – a natureza humana que se recisa a ser represada, ou reprimida -, mas na mesma época em que Clément fazia “Terra Cruel” o próprio Kazan estava empenhado na realizaÇao de “Rio Violento”, também com Jo Van Fleet e girando em torno da construÇao de uma represa. Muita coincidencia, nao? As coincidencias sao maiores ainda porque “Barrage” chega ao 4+ 1 no momento em que “Minha Terra, África”, de Claire Denis, encontra-se em cartaz em Sao Paulo. Duas visoes do colonialismo frances, na África e na Ásia (Camboja), e em ambas a matriarca é interpretada pela mesma atriz, a sensacional Isabelle Huppert. A diferenÇa está no olhar. Claire Denis é europeia, Rathy Panh é asiático, mas ele diz que se identifica muito com o olhar da escritora, com sua compaixao, que considera muito oriental, e com sua vontade de nao emitir julgamentos morais sobre os personagens nem suas motivaÇoes. Alguém se deu ao trabalho de tirar um xerox, para mim, do texto do filme de Claire Denis na “Vejinha”. Seria comico, senao fosse trágico. Em todo caso, ridículo é. O filme é muito melhor do que aquilo. Assistam, e vejam também o Rathy Panh no 4 + 1.