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Luiz Carlos Merten

26 Julho 2010 | 18h20

Tomava um café ontem no Belas Artes, à espera do começo da sessão de ‘O Grão’, quando encontrei Léo Mendes, assistente de programação da casa. O Léo estava indo rever ‘O Segredo dos Seus Olhos’. Jogamos um pouco de conversa fora, mas ele me me relatou uma coisa que acho importante repassar. Bergman é o atual homenageado do Cineclube Belas Artes. A homenagem começou com ‘O Sétimo Selo’, prossegue com ‘A Fonte da Donzela’ e inclui ‘O Ovo da Serpente’. Me disse o Léo que ‘A Fonte’ está indo bem, mas ‘O Sétimo Selo’ arrebentou, tendo sala cheia em várias sessões. Já contei para vocês que P.F. Gastal, o Calvero, amava Bergman e acho que até como uma reação contra ele a minha geração meio que negligenciava o grande diretor. Meu primeiro Bergman do ‘coração’ foi ‘Gritos e Sussurros’, que vi em Buenos Aires, acho que em 1973, quando ainda pesava a ameaça de proibição sobre o filme no Brasil. Tive um choque e foi ali que comecei a repensar, ou a pensar, Bergman, redescobrindo ‘Morangos Silvestres’, meu favorito, ‘Mônica e o Desejo’, ‘O Rosto’ etc. Durante muito tempo ‘O sétimo Selo’ foi um corpo meio estranho para mim. Não conseguia assimilar a doideira daquele cavaleiro jogando xadrez com a morte, num duelo intelectual que colocava graves questões contemporâneas. O cavaleiro interroga, busca respostas e a própria morte não sabe o que vem depois dela. Finalmente, me rendi ao filme de 1956 e a parábola da sagrada família terminou por me arrebatar. Na série de lectures sobre Bergman a que assisti em Faro, durante a Semana Bergman, há quantos? três anos?, ouvi interpretações bem interessantes relacionando o cavaleiro de Bergman e seu escudeiro a Dom Quixote e Sancho Pança e até que a iconografia do filme foi baseada nos murais da igreja em que o pai do diretor foi clérigo. É um filme tão rigoroso e os atores, meu Deus! Max Von Sydow, Bengt Ekerot, Bibi Andersson, Gunnel Lindblom, Maud Hansson são todos geniais. Bibi sempre teve uma luminosidade especial no cinema de Bergman, mas Maud é inesquecível como a bruxa e aquela procissão de auto-flageladores assombra meu imaginário desde que a vi pela primeira vez. Entendo perfeitamente esse entusiasmo dos cinéfilos por ‘O Sétimo Selo’, até porque o desfecho, o sacrifício do cavaleiro em prol da família de artistas, é muito bonito. Comparativamente, não creio que ‘A Fonte da Donzela’ seja tão bom, mas Bergman ganhou seu primeiro Oscar, em 1960, justamente pela recriação da lenda medieval contando a história do homem – Max Von Sydow, de novo – obcecado para vingar a filha. É o filme em que Deus rompe seu silêncio e a desesperada interrogação do homem ganha uma resposta quando o divino se manifesta e Von Sydow é tocado pela graça que emana justamente da fonte no lugar em que a garota foi violentada e morta. Bergman morreu em 30 de julho de 2007. Não creio que tenha havido outro dia assim tão emocionante e visceral para cinéfilos. Morreram Michelangelo Antonioni e ele, com poucas horas de diferença. Nunca me esqueço do que escreveu Jean-Luc Godard, em ‘Cahiers’, no fim dos anos 1950 – ‘O cinema não é ofício, é arte. Cinema não é trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman, estar só é se fazer perguntas, filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico’. A homenagem a Bergman prossegue no Cineclube. Daqui a pouco tem sessão no Belas Artes, às 7.