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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2009 | 16h00

Por problemas de espaço, a entrevista de Dany Boon, o diretor de ‘Bienvenue chez les T’chis’, ou ‘A Riviera não É Aqui’, publicada hoje no Caderno 2, teve de ser reduizida. Meu editor então colocou que a íntegra estaria no blog. Aqui vai ela.
Dany Boon está em Buxelas, buscando locações para o próximo filme, que começa a rodar em fevereiro. O ator e diretor de comédias número um da França ­ por que só de comédias? ­, o fenômeno nacional, conseguiu o prodígio nunca antes igualado. Mais de 20 milhões de franceses foram ver Bienvenue chez les Ch’Tis e outros 7 milhões – quase 8 – transformaram o filme num sucesso na Alemanha, na Espanha, na Itália e no Japão. Com o título de A Riviera não É Aqui, Ch’Tis é a atração de hoje do Festival Varilux do Cinema Francês. Dany Boon ama o que faz e há 15 anos é um bem sucedido artista de music hall e cinema, mas nada o preparava para o megasucesso deste filme. Ele admite estar feliz, mas preocupado.
– Como é essa sensação de ser o número um? Tudo é festa ou há muita pressão?
– O problema de ser o número um é que você não tem nenhum degrau para subir e, pelo contrário, é muito fácil descer. Estou trabalhando no meu ritmo de sempre, preparando… como preparei os anteriores. Disponho de mais dinheiro, será uma rodagem mais longa, até maio. É um filme com muitos personagens, muita história, tenho um roteiro muito preciso. Mas a pressão é grande. Eu próprio me pergunto – vou chegar lá? A melhor maneira é continuar fazendo o que sempre fiz.
– Depois que Ch’Tis arrebentou nas bilheterias, surgiram muitos analistas para discutir o fenômeno. Uma das análises curiosas é que o filme se beneficiou da queda de popularidade do presidente Nicolas Sarkozy. Concorda?
– Como um público de mais de 20 milhões de espectadores era algo inédito na França, o fenômeno passou a ser dissecado na mídia. Não apenas jornais e revistas. Emissões de TV, debates na universidade. Essa análise a que você se refere dá conta de que a França que o filme mostra – a dos humildes, dos solidários – é o oposto do estilo glamouroso sdo grande Nicolas e de sua Carla (a primeira dama Carla Bruni). Nicolas quer colocar a França na dianteira do mundo global, mas isso pode significar um reverso de nossas expectativas. Queremos ser os primeiros, mas também em solidariedade, em bem-estar. O filme é um pouco sobre isso. Mas não o fiz com uma intenção política. O filme, de qualquer maneira, não me pertence mais e eu somente posso assistir a que os outros se apropriem dele. No máximo, faço com a cabeça ‘sim’, ‘não’…
– Existe muita expectativa pelo seu filme no Brasil. Em geral, o cinema francês que faz sucesso no País é o de autor, não os blockbusters. Mas Ch’Tis é um filme com história. Seu protagonista ­- você -­ faz de tudo para tirar a mulher da depressão. Chega a trapacear no trabalho para ir para a Riviera, mas é enviado para o norte, para a região dos Ch’Tis. Explique para o público brasileiro o que são os Ch’Tis?
– É o dialeto local, a nossa maneira de falar no norte da França. Essa região é muito diferente do sul, com suas praias, o clima ameno, o sol o ano todo. O norte é frio, é cinzento, neva e as pessoas ainda falam carregando nos ch’tis. Quando meu personagem, um funcionário dos correios, é enviado para lá, sua sensação é de que o mundo acabou para ele, mas aí ele descobre a comunidade, a amizade, a solidariedade. Num certo sentido, trabalho aqui sobre dois temas – o peixe fora d’água, usando D… para revelar a paisagem e os costumes para o espectador, e a descoberta, que ele faz, de que a humanidade tem esperança.
– A mãe de seu filme é uma personagem muito forte.
– Venho dessa região. Conheço o temperamento das pessoas. A mãe do filme é a minha mãe, não a atriz, mas a personagem. Carreguei nas tintas, porque, afinal, é um filme e uma comédia, mas basicamente é ela e mamãe se reconheceu na personagem, amou os Ch’Tis. Posso ser um sonhador, mas fui para Paris em busca de sucesso, alcancei o que queria, mas sem abandonar minhas raízes. Dizem que sou um homem rico, o artista mais bem pago da Europa Mas esse dinheiro está aplicado na empresa, que dá emprego e não financia apenas meus filmes. Não me interessa comprar iate, jatinho. Vivo como sempre vivi há 15 anos, quando o music hall estabilizou minha vida.
– Seu humor é, simultaneamente, verbal e visual.
– E as duas coisas nascem juntas. Da minha experiência no music hall, consigo ver a cena como um todo já no papel.
– Quem são seus mestres?
Gerard Oury (diretor francês de comédias), Louis de Funès, Bourvil, Jacques Tati. Entre os norte-americanos, os clássicos – Chaplin, Buster Keaton. Entre os modernos, Blake Edwards e, claro, Peter Sellers.
– Você diz que vai filmar de fevereiro a maio. – Serão quatro meses?
Aproximadamente. Parece muito tempo, mas o humor é caprichoso. Um gag demanda tempo. Se logro filmar 2 minutos por dia, dou-me por satisfeito. O desafio é preparar tudo laboriosamente e, depois, fazer com que o espectador acredite que tudo está acontecendo espontaneamente. Melhor – que poderia estar acontecendo com ele.
– Seu nome parece um tanto estranho…
– É porque não é um nome de verdade. É um pseudônimo. Meu verdadeiro nome é Daniel. Quando garoto, adorava a série Daniel Boone, na TV. Como meus amigos me chamavam de Dany Boon, para zoar, resolvi incorporar o nome.
(A título de comoplemento, acrescento que ‘A Riviera não É Aqui’ passa no Festival Varilux do Cinema Francês, às 19 horas, no Frei Caneca.)