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Luiz Carlos Merten

10 Março 2011 | 09h59

Tenho um monte de matérias para a edição de amanhã, os filmes na TV de sexta e domingo e um médico, no meio da tarde. Mas não resisto a acrescentar mais um post, rapidinho. Não sei se ocorre com vocês, mas ver cinema, para mim, em condições extremas, vira uma experiência emocional visceral. Ontem à noite, estava febril, tiritando de frio. Liguei a TV e passava ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’ Até hoje não sei se gosto desse filme de Danny Boyle nem do seguinte, ‘127 Horas’, que concorreu ao Oscar deste ano. Ou melhor, gosto, mas sempre me pergunto por que, já que os defeitos estão na cara, seriam filmes fáceis de demolir e, mesmo assim, eu embarco nas histórias. Há algo no miolo de ‘Slumdog Millionaire’ que me atrai muito. É a história dos dois irmãos, que seguem rumos opostos. Ecos de Simone e Rocco? Talvez – o olhar de ódio e dor entre Jamal e o irmão, quando o segundo atira Latika no carro e corta o rosto da garota, é de dilacerar. O próprio irmão toma consciência da brutalidade de seu gesto e libera Latika para Jamal. Sacrifica-se, matando e morrendo para que o casal seja feliz. Estava fragilizado, reconheço, mas chorei tanto que me deu taquicardia e eu pensei que ia morrer. O coração parecia que queria sair do peito, a cabeça latejava. Tive de me acalmar. ‘Pára, Merten, é só um filme.’ Sempre que penso nisso, acrescento para mim mesmo – só? Para quem vive, reflete, escreve sobre cinema como eu, nunca é ‘só’. O cinema não é só ganha-pão, como jornalista. É a minha ferramenta para tentar ser engajado, militante, uma pessoa melhor. Hoje pela manhã, continuo sem saber se gosto dos filmes de Danny Boyle. Mas, pela impressão que ‘Milionário’ me causou – tudo bem que não estava nas minhas melhores condições -, a última coisa que posso dizer é que se trata de um autor que me deixa indiferente.