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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2011 | 11h37

Estou em choque. Havia acordado tarde – fiquei ouvindo o barulhinho da chuva na cama. Depois do banho, ia me atracar no blog, para postar alguma coisa sobre ‘Millemium – Os Homens Que não Amavam as Mulheres’. Antes, chamei meu amigo Dib Carneiro Neto, que mora perto, para tomarmos café na Trigonella, uma padaria aqui em Pinheiros, na Arthur de Azevedo com a Virgílio. Entrou João Luiz Sampaio, também vizinho, esbaforido – aonde vai correndo? Ao jornal. A pergunta saiu automática – quem morreu? Daniel Piza. Como? Na terça ou quarta, conversando com meu editor, Ubiratan Brasuil, ele me havia dito que o Daniel ia morar em Nova York. Já havia acertado com o jornal. Ficaria lá uns dois ou três anos. Havia pensado comigo – Daniel vai fazer o seu Diário da Corte, substituindo Paulo Francis, que foi uma de suas referências. Morreu de um ataque fulminante do coração – é o problema de ter infarto ainda jovem. No último dia de 2011. Às vésperas de um ano que prometia ser de mudança para ele. Fiquei, confesso, em choque. Não era íntimo do Daniel, volta e meia discordava dele, nunca liguei muito para a sua gafe – ele trocou Cristo por Judas e escreveu que havia morrido enforcado. Quem nunca errou, na imprensa, que atire a primeira pedra. E quanto a padronizar o pensamento, longe de mim querer que todo mundo pense igual. E eu o conhecia, sei lá, há uns 20 anos, ou quase. Completei no dia 10 (de dezembro) 23 anos de São Paulo. Só de ‘Estadão’, são 22 anos – uma vida. José Onofre era o editor quando cheguei no ‘Caderno 2’. Logo em seguida, Hamilton dos Santos foi editar o ‘Cultura’  e vieram aqueles dois franguinhos para trabalhar com ele, que imediatamente viraram motivo de chacota dos veteranos. Os dois viraram jornalistas importantes, Carlos Graieb e Daniel Piza. Não vou dizer que os vi crescer – o Graieb eu nem vejo há tempos -, mas Daniel virou chefe no jornal, estava sempre por ali, rondando. E ele sempre me provocava, mas com lealdade. Rezando na cartilha da grande cultura, ele me dava a impressão de emular o pensamento de Paulo Francis, que gostava de cinema – Bergman, Bergman, Bergman -, mas não acreditava que a sétima arte, com sua origem nas feiras populares, pudesse alcançar a profundidade, por exemplo, da literatura como expressão do pensamento humano. Daniel não parecia acreditar, como eu, que pode existir vida inteligente nos blockbusters e que é possível gostar de Christopher Nolan como do mais miúra dos diretores. Às vezes, rendia-se. Aos 66 anos, e às voltas com médicos – só nesta semana fiz uma cauterização no couro cabeludo, tive de tratar da rótula e estou com uma infecção de ouvido -, sou um sobrevivente. Não só no jornal, mas na vida. Tantos amigos já se foram. Companheiros de geração, gente mais jovem. Lembrei-me agora do Gabaju, Gabriel Bastos Jr. Embora garoto, ele era meu guru na área de quadrinhos. Gabaju era um touro, o maior pegador da redação do ‘Caderno 2’. Você olhava para ele e dizia – esse guri vai viver 100 anos. Teve um aneurisma e morreu na flor da idade. Jotabê Medeiros assumiu seu lugar como meu consultor de HQs, mas volta e meia quando estreia um desses filmes com heróis da Marvel eu me lembro do Gabaju. Lembrei-me dele em Dubai, depois de ver o ‘Tintin’ do Spielberg, mais Indiana Jones do que Hergé. Gabaju teria gostado? Não me arrisco a dizer do que Daniel Piza teria gostado, mas sua morte me desconcerta. Já estava me preparando para o seu Diário da Corte, que agora não haverá. Daniel Piza despede-se da gente com 2011.