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Daniel Burman e as leis de família

Luiz Carlos Merten

23 Julho 2007 | 13h14

Encontrei-me agora de manhã com o diretor argentino Daniel Burman, que está na cidade para a abertura do 2º Festival de Cinema Latino-Americano, que ocorre à noite, às 20h30, no Memorial da América Latina, numa sessão para comnvidados. Para o público, o evento começa amanhã. Burman veio apresentar seu novo filme, As Leis de Família. Ele é muito jovem. Aos 33 anos, já conta com uma filmografia formada por oito títulos, incluindo um telefilme e o episódio de 18-J, sobre o ataque de neonazistas a uma sinagoga na Argentina. Entre esses filmes todos, encontram-se alguns que são importantes e firmaram sua reputação – Esperando o Messias, que eles fez aos 25 anos, e já era seu terceiro ou quarto filme, O Abraço Partido e, agora, Derecho de Familia. A crítica francesa, acho que era Truffaut quem dizia isso, sustenta que os autores fazem sempre um filme contra o anterior. Foi o que perguntei a Burman – se ele havia feito As Leis de Família contra O Abraço Partido. Afinal, ambos tratam de um pai e um filho e das relações conflitantes entre ambos. O de Abraço sumiu no mundo; o das Leis está ali o tempo todo e o filho teme estar se transformando nele. Burman diz que não foi propriamente contra, mas o filme atual surgiu da vontade de aprofundar as relações humanas do anterior. Ele fez Direito antes de se tornar cineasta. O que o fato de haver estudado para ser advogado trouxe para seus filmes? Tudo! O Direito trata das leis, de família inclusive, e a filosofia do Direito, que estudou, tem lhe permitido analisar em profundidade as relações humanas e sociais. Mesmo sem a preocupação de apontar caminhos, ele diz que tem conseguido resolver na ficção problemas que às vezes permanecem sem solução na vida. Sobre o festival, Burman diz que é extraordinário como tentativa de aproximação de culturas que são próximas, geograficamente, mas distantes em quase tudo, como a brasileira e a argentina. Ele não acredita que a língua seja a grande barreira. Há mais comunicação entre EUA e México e as diferenças entre o inglês e o espanhol são muito maiores do que entre o português e o espanhol, duas línguas de raiz latina. Existem 240 cinemas na Argentina. No Brasil, estão em torno de 2 mil. Seus dois últimos filmes fizeram 200 mil espectadores, cada. É um número muito bom, principalmente para um filme de autor, mas não um blockbuster. Os grandes sucessos de público na Argentina ficam em torno de 500 mil espectadores. Gosto bastante dos filmes de Burman. Ele se encaixa no perfil daquilo que a gente considera o melhor cinema de lá. Dramas humanos, análise da classe média, situações do cotidiano. Mas há algo mais no cinema de Burman. Ele pode ser visto no plano do concreto, e é consistente, por certo, mas também há uma certa abstração que aparece principalmente no Messias, uma deliberada vontade de extrapolar a discussão sócio-política por meio da indagação da identidade. Acho que isso tem a ver com a investigação da identidade judaica que está na essência da vida e da obra do diretor. Afinal, ele é de origem judaica e costuma refletir muito sobre isso. As Leis de Família inaugura hoje o Festival Latino-Americano, tem uma ou duas sessões nos próximos dias, mas você não precisa correr. A estréia está apontada para sexta.

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