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Cultura » Dançando com os ‘sapatinhos vermelhos’

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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2009 | 12h41

CANNES – Havia gostado muito do filme de Ang Lee, ‘Taking Woodstock’, e continuo gostando, claro, mas hoje pela manhã experimentei o que os franceses chamam de ‘coup de coeur’ e foi pelo primeiro representante da França, na competição oficial, ‘Le Prophète’, de Jacques Audiard. Dada essa palinha, volto daqui a pouco ao assunto. Agora quero falar sobre a sessão especial de ‘Red Shoes’, Sapatinhos Vermelhos, ontem à noite. O próprio Martin Scorsese, cujo trabalho à frente da World Cinemas Foundation foi responsavel pela restauração, foi dizer para jornalistas de todo o mundfo porque o filme de Michael Powell e Emeric Pressburger é tão importante para ele. Ele disse que poderia falar da história, dos movimentos de câmera, da dança, da cor, da música, mas preferiu citar uma cena em que Anton Walbrook pergunta a Moira Shearer numa recepção por que dançar é tão importante para ela e Moira responde – ‘Por que viver é importante? Respirar’ A dança para ela não é só um meio de expressão, é uma coisa mais visceral. A idéia é bonita, o filme, confesso, que me provocou uma admiração fria. Consigo admirá-lo, conceitual e intelectualmente, mas gostar… Achei cafona e, para falar a verdade, todos os atores – Anton, Moira, Marius Goring – me pareceram no mínimo uns dez anos mais velhos para os papéis. Mas a sessão foi linda. Scorsese lembrou a primeira vez que filme o filme, levado por seu pai. O que ele (re)contou foi aquilo que vivo repetindo aqui. A forma como nos apropriamos dos filmes tem a ver com qualidades intrínsecas às obras, por certo, mas o que nos leva a amar esse ou aquele filme mais do que outro é uma experiência no limite pessoal e intransferível. Scorsese chamou ao palco do Théâtre Claude Debussy a viúva de Michael Powell, a montadora Thelma Shoonmaker, duas vezes vencedora do Oscar por filmes que fez com ele, ‘Touro Indomável’ e ‘Os Infiltrados’. No fundo, reconheço que sou um romântico. Me emocionam muito essas mulheres que se empenham em manter viva a memória dos maridos. Agnès Varda, sacerdotiza do culto a Jacques Demy; a atriz Haya Harareet, de ‘Ben-Hur’, que permanece devotada a Cy(ril) Endfield; e Thelma, que disse umas coisa linda, que Michael Powell não foi só o melhor cineasta mas foi também o melhor marido. A platéia estava cheia de personalidades – os diretores Ang Lee e James Gray, filhos e netos de Michael Powell, Emeric Pressburger, Moira Shearer e do diretor de fotografia Jack Cardiff, responsável pelas experiências com a cor que ajudam a fazer a fama do filme. Levantaram-se a viúva e o filho de Cardiff. Ela estava muito emocionada. Cardiff morreu há quanto? Duas semanas? Três? Scorsese lembrou que ele foi um dos maiores chefes operadores que trabalharam na mídia cinema e dedicou-lhe a sessão. Eu estava me sentindo no céu, participasndo de toda aquela emoção. Apagaram-se as luzes, a sessão já ia começar. Entrou o cara que toca o gongo, símbolo da Rank Organization, que produziu o filme. Viajei nas lembranças, quando via aquela abertura em filmes que faziam parte da minha infância, em Porto Alegre. Estava no clima para gostar, mas, infelizmente, não gostei tanto do próprio filme. A experiência da sessão, de qualquer maneira, foi uma coisa maravilhosa. Só para complretar. À tarde, ontem, Scorsese deu uma coletiva. Ele não falou nada sobre o próximo filme, a ‘biopic’ de Frank Sinatra. Concentrou-se no trabalho da World Cinema Foundation. Scorsese anunciou que a oreganização vai disponibilizar na internet quatro clássicos que restaurou recentemente. Ele não nomeou os filmes. Fiquem de olho.