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Cultura » Da série ‘o horror que não termina’

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Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2009 | 11h43

Fui rever ontem ‘500 Dias com Ela’ e me encantei ainda mais com a comédia de Marc Webber com Joseph Gordon Levitt e Zooey Deschanel. Encontrei Bruno Barreto, que também se rendeu ao charme do filme (e da atriz). Pedi-lhe, brincando, que escrevesse um roteiro para ela, só para eu ter o prazer de entrevistar a Zooey (e aqui no Brasil). Brincadeirinha à parte, o filme me toca até quando reafirma conceitos sobre o amor – e a fórmula da comédia romântica – que parece subverter. E os filmes dentro do filme, quando Joseph expressa sua infelicidade em curtas em preto e branco que evocam a nouvelle vague e Bergman são ótimos. Estava com meu amigo Dib Carneiro. Deveríamos ter jantado e bye-bye, mas eu insisti para que fizéssemos um programa duplo e fomos ver ‘Código de Conduta’. Fiquei na maior depressão no fim da noite. É impressionante como filmes mexem comigo. Eu reajo fisicamente. Dei uns dois pulos na poltrona que deixaram o Dib sobressaltado – o que houve? E no final estava me sentindo mareado, com ânsia de vômito. Exagero? Pode ser. Filmes como esse, e ‘2012’, oferecem amostras das facilidades a que recorrem os roteiristas de Hollywood. No disaster movie de Roland Emmerich – por mais impressionantes que sejam os efeitos -, o mundo termina só para que uma garotinha abandone as fraldas, deixando de fazer xixi na cama, à noite. Aliás, o próprio Emmerich diz que o filme dele não é sobre o fim do mundo, mas justamente sobre o (re)começo. No de F. Gary Gray, Gerard Butler sobrevive ao massacre de sua família para ver o promotor Jamie Foxx fazer um acordo que liberta um dos assassinos de sua mulher e filha. O cara, descobrimos depois, é especialista em eliminar inimigos do governo norte-americano e usa sua, digamos, habilidade, para destruir o sistema legal dos EUA. Tudo acontece para que Jamie Foxx, que só pensa na carreira – e por isso fez o acordo, no começo -, passe a valorizar mais a família e, no final, vá ao recital da filha (que havia ignorado anteriormente). Confesso que não tenho mais paciência para esse tipo de solução de roteiro e, por isso, estou meio empacado com o livro de Doc Comparato, ‘Da Criação ao Roteiro’, que ensina justamente como se escreve um filme. Prometi à assessoria fazer uma matéria e até quero entrevistar o Doc, mas o problema é que a maioria desses manuais baseiam-se em pressupostos de eficiência narrativa que são próprios do cinema de Hollywood, que conta histórias. Roteiros como os de ‘Independência’ e ‘Non, Ma Fille, Tu n’Iras pas Danser’ me fascinam justamente por quebras narrativas – o cinejornal, no primeiro, o filme dentro do filme, no segundo – que seriam condenadas no cinemão. Volto a ‘Código de Conduta’. Além do promotor negro, o filme tem a prefeita negra. Será que a era Obama tem alguma coisa a ver com isso? Roland Emmerich me disse em Cancún que o fato de o presidente dos EUA em ‘2012’ ser negro (Danny Glover) foi mera coincidência, porque quando ele começou a trabalhar no projeto era tido como certo que Hilary Clinton seria escolhida pelo Partido Democrata. Mas o pior de ‘Código’ é que a prefeita é uma negra de alma branca. Esperem, antes de me crucificar, achando que sou racista. A prefeita tem um discurso – em que apela para a lei de segurança nacional contra Gerard Butler – que parece coisa de George W. Bush. Havia, no filme, algo interessante. Lá pelas tantas, quando se percebe que Butler está obviamente punindo Jamie Foxx e o fazendo experimentar o mesmio sentimento de impotência que ele vivenciou ao ver a mulher e a filha sendo mortas, o filme parece que vai reabrir a vertente de ‘Seven, os Sete Pecados Capitais’, quando o serial killer Kevin Spacey enreda Brad Pitt de tal maneira que não lhe deixa alternativa ética num mundo em desequilíbrio. Tolice minha – David Fincher é um (grande) autor, F. Gary Gray é pau para toda obra e, conscientemente ou não, representa a primeira revanche republicana em Hollywood. Para completar tudo isso, ontem estava me sentindo todo errado. Minha ex, a Doris, teve de mandar sacrificar em Porto Alegre o poodle, o Rilke, que sofreu um AVC e, em consequência, ficou com um problema na coluna vertebral que não mantinha sua cabeça ereta. Doris me disse que era uma coisa horrível – a cabeça girava sobre o eixo como a de Regan em ‘O Exorcista’ e o cachorro não conseguia mais caminhar. Ficava deitado e gemendo. O sacrifício foi um ato humanitário, mas não pude deixar de sentir mal-estar por causa do Rilke. Não é a mesma coisa, eu sei, mas o filme ‘Código de Conduta’ só piorou esse mal-estar. Fiquei me sentindo péssimo. e o Jamie Foxx e a Alberta Hall (a prefeita) fazendo um filme desses. Francamente…