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Cyd, Angie. comentando os comentários

Luiz Carlos Merten

18 Junho 2008 | 10h52

Fui olhar os comentários sobre a morte de Cyd Charisse e quero dizer duas ou três coisas sobre o que postaram o Celdani, o Alexandre e o Vladimir. Citei as pernas de Cyd, as coxas grossas e fortes que se tornaram tão famosas que no número dela em ‘Cantando na Chuva’, o ‘Broadway Rhythm’, o que se vê primeiro, no canto da tela, antes mesmo que ela entre em cena, são as pernas, que Gene Kelly olha embasbacado e a cabeça dele faz o movimento para cima até descortinar todo aquele monumento. Mas o Celdani não se satisfaz e cita as pernas de Angie Dickinson. Onde anda ela? Não sei, estou chutando, mas Angie fez sua última aparição no cinema (acho) num pequeno papel de ‘Onze Homens e Um Segredo’, o remake de Steven Soderbergh, como homenagem ao original de Lewis Milestone, que ela co-estrelou com Sinatra, Dean Martin e a ‘turma’. Foi em 2001 e depois ela fez, em 2004, alguns episódios de séries. Em seguida, pelo que sei, nada. Angie nasceu em 1931, em North Dakota. Está beirando os 80 anos (tem 77), mas tenho a impressão que o problema pode ser de família. Angie tem uma irmã que sofre de Alzheimer. Pode ser que issop tenha a ver com sua parada, mais a idade, claro. Mas ela era deslumbrante como a Feathers de ‘Onde Começa o Inferno’ (Rio Bravo), o sensacional western de Howard Hawks, aumentando os perigos de John Wayne (um tema recorrente na obra do grande diretor). Angie foi das primeiras atrizes, quando o cinema secou, a ganhar sobrevida na TV (com a série ‘Police Woman) e ela ainda fez ‘Vestida para Matar’, o pastiche hitchcockiano de Brian de Palma, cujas cenas iniciais, até que ela seja assassinada a golpes de navalha no elevador, são sublimes. Vladimir me pergunta por que não se fazem mais cenas dançadas a dois, como a de Cyd e Fred Astaire em ‘Roda da Fortuna’, de Vincente Minnelli. Por que? Não me considero especialista em musicais – como Rubens Ewald Filho -, portanto, estou ‘chutando’. Mas eu acho que, nos 40 e 50, o musical era realmente um meio de expressão de autores como Minnelli, Stanley Donen, George Cukor e outros. Donen era atraído pelo tema do casal, Minnelli criou todos aqueles números – Gene Kelly e Leslie Caron dançando a suíte ‘An American in Paris’, em ‘Sinfonia de Paris’, como um passeio intimista pela obra dos pintores que amava; Cyd e Astaire expressando um ideal de equilíbrio na ‘Roda’ – porque traduziam sua visão de mundo, ou de arte. Nos anos 60, a partir de ‘Amor, Sublime Amor’ (West Side Story), o musical tornou-se, cada vez mais, show, que os diretores buscaram, preferencialmente, na Broadway. Os próprios ‘autores’, como Bob Fosse, tinham outras preocupações, menos intimistas. E existe a mudança geral do gênero. Nos 40 e 50, a Metro tinha seu departamento de dança, no qual atores, diretores, coreógrafos, bailarinos e cenógrafos iam se afinando, o tempo todo. As mudanças da economia do cinema norte-americano, face ao advento da TV, nos 50, foram inviabilizando, pelos altos custos, a manutenção dessas equipes que se tornaram ociosas (e caras). Acho que é uma soma de tudo isso. Uma coisa é preparar atores, e cantores, e bailarinos, para UM número de dança num musical narrativo como ‘West Side Story’, onde o que importa é a história. Outra coisa é a Cyd caminhando com Fred Astaire no Central Park e, de repente, de forma sutil, quase imperceptível, as passadas vão virando dança em ‘A Roda da Fortuna’. Aquilo é magia, é sublime, e não é preciso ser fã de carteirinha de musicais para se extasiar com tanta beleza. O filme vira o próprio número (e vice-versa) porque a cena não está ali para fazer a história avançar. Ela vira ‘a’ mise-en-scène. O post ficou grande. Falo sobre o comentário do Alexandre Aguiar no próximo.