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Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2008 | 14h50

Mauro Brider aproveita o post do ‘Don Giovanni’ para falar das preciosidades à venda na 2001 da A. Paulista. Cara, tu me deixaste babando. Havia visto esta semana, na TV paga, partes de um Edgar G. Ulmer inédito (para mim), ‘Barba-Azul’, que ele fez nos anos 40, com John Carradine. Ulmer dispõe da reputação de realizador maldito. Tendo estudado arquitetura e filosofia (na Áustria, onde nasceu), ele chegou ao cinema via teatro, integrando a célebre companhia de Max Reinhardt. Ulmer deve sua fama, em geral, a filmes de gêneros, que fez a toque-de-caixa, com orçamentos ridículos. O tal ‘Barba-Azul’ é estranhíssimo, transformando o assassino de mulheres num manipulador de marionetes, que se apaixona por uma de suas ‘vítimas’ e vive o conflito entre o amor e a sua compulsão de matar. A sensibilidade de Ulmer é européia e, logo de cara, tem toda uma encenação de maionetes à base de canto lírico, na qual a tragédia de Fausto vira metáfora do conflito vivido pelo proprio personagem de Carradine. Não vi o filme inteiro e a produção era tão pobre – paupérrima -que não me arrisco a dizer que fosse bom de verdade. Mas fiquei nos cascos, como se diz, ao saber pelo Mauro que ‘Detour’ está à venda, e baratinho. Conheço alguns dos clássicos de Ulmer – ‘O Gato Preto’, com aquele extravagante duelo de xadrez entre Boris Karloff e Bela Lugosi no castelo isolado, e ‘Madrugada da Traição’, western com Arthur Kennedy e Betta St. John que ‘Cahiers’ considerava obra-prima absoluta (além de ser um monumento ao cinema de ‘autor’). Um filme de terror e um bangue-bangue. só me falta agora conhecer o tal ‘Detour’, que no Brasil se chamou ‘Curva do Destino’ e é considerado um dos grandes noir da história. Não sei até que ponto tem a ver com o filme nem se é mera copincidência, mas Cheryl, filha de Lana Turner, intitulou justamente ‘Detour’ a sua autobiografia. Foi um dos casos célebres de Hollywood. Cheryl esfaqueou o gângster Johnny Stompanato, amante de sua mãe – ou a própria Lana matou e Cheryl assumiu por ser de menor e, portanto, poder sair ilesa (em termos…) do episódio. Nunca li ‘Detour’, mas acho que a curva do destino faz sentido. O livro fez sensação não porque Cheryl implique a mãe no que quer que seja, mas porque ela se assume como lésbica, alimentando as fantasias dos que, lendo somente a orelha dos manuais de psicanálise, encaram o fato como reação aos inúmeros casamentos fracassados de Lana. O episódio inspirou um best seller sensacionalista de Harold Robbins, que Edward Dmytryk transformou em filme – ‘Escândalo na Sociedade’, com Susan Hayward e Bette Davis. Acho o ‘outro’ Harold Robbins do Dmytryk, ‘Os Insaciáveis’ – ‘O Aviador’ que deu certo – excepcional, mas ‘Escândalo na Sociedade’, apesar de belas cenas em que Dmytryk usava magistralmente a profundidade de campo, era um desastre. Me afastei demais do espírito inicial do post, mas ‘Detour’, ou ‘Curva do Destino’, é noir, segundo os especialistas, para ninguém botar defeito. Baratinho assim, como resistir?