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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2007 | 12h53

GRAMADO – Redigi muito rapidamente o post sobre Zezé Motta, que não reli, pois corri para o debate dos curtas. Uma das inovações de Gramado neste ano foi ter retirado os curtas em competição da noite, onde eles sobrecarregavam a exibição dos longas, geralmente dois, mais as homenagens. Eram sessões que não terminavam mais. Os curtas passaram para a tarde, mesmo sob protestos dos diretores, que se sentiram discriminados. Eu, confesso, gostei. Vi ontem à tarde a primeira sessão de curtas concorrentes. Foram quatro. Gostei de dois, achei um terceiro interessante e o quarto… Adorei A Psicose de Valter, de Eduardo Kishimoto, que o catálogo do festival define como ficção feita sobre um personagem documental. Pensei lá com meus botões, após a exibição – que japonesinho pirado! Juro que não tinha conotação racista e uma das coisas de que gostei foi justamente a diversidade étnica.Um jovem diretor de origem japonesa falando de um negro com doutorado em filosofia e que dá uma aula maravilhosa sobre Kant para um loirinho de olhos claros. O cara, além do mais, trabalha com pornografia, fazendo vídeos eróticos – é verdade -, o que permite a Kishimoto construir uma narrativa original. Som e imagem andam dissociados, num recurso que o diretor assimilou de Eisenstein (a montagem vertical). No som, ouve-se a entrevista de Valter com uma garota de programa. Na imagem o rapaz pede ao erudito negro que lhe explique Kant, enquanto fica de olho no rabo da negra (gostoséssima) que faz a limpeza do bar/sinuca em que ambos estão. Esse Kishimoto não é mole, não! Gostei também, embora menos, é verdade, de Perto de Qualquer Lugar, de Mariana Bastos, que surgiu no mesmo quadro do concurso da Cultura Inglesa que revelou Esmir Filho. Mariana, por sinal, utiliza a mesma atriz de Alguma Coisa Assim (e ela própria trabalhou com Esmir), mas a diretora prefere destacar as diferenças entre ambos. Esmir mostrava a primeira experiência de um adolescente gay. Mariana filma a primeira noite de uma adolescente hetero que vai sofrer, também, sua primeira decepção amorosa. Mariana não deveria se preocupar com a alegada, eu próprio insisto nela, aproximação de Esmir. Até os opostos conseguem dialogar e eu acho que os dois filmes não são antinômicos. Dialogam, o dela é legal e a Carolina Abras, que faz a protagonista, me lembrou Chloë Sevigny. Pensam que é pouca coisa? Eu acho que não.

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