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Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2009 | 18h51

Não tive tempo de contar para vocês quão emocionante foi a homenagem que recebi no Curta Santos, terça-feira à noite. Na verdade, recebi meu troféu com um ano de atraso, pois havia faltado à cerimônia em 2008. Nesta edição, os homenageados foram Carlos Manga e Maitê Proença. A premiação foi no Sesc de Santos e a festa foi a mais bonita que vi num festival brasileiro. Sabem um show, feito comme il faut, como deve ser? Foi o que ocorreu. No dia seguinte – ontem pela manhã – mediei um debate sobre a realidade dos festivais regionais e até brinquei com o Toninho, criador e alma do Curta Santos – ele devia ter gastado toda a verba naquela abertura. Toninho explicou que, na verdade, o que vi foi feito com pouquíssimo dinheiro, mas muito empenho da comunidade. O bilionário porto de Santos não dá um tostão para o festival, mas as pessoas fazem até show de graça pelo prazer de contribuir para um evento que ajuda a formar público e revelar talentos. A mostra Olhar Caiçara é sempre muito concorrida. O troféu é de peso – deve pesar uns cinco quilos! No palco, não sei se isso está no You Tube, fiz um discurso de agradecimento que citava o Manga, um dos reis da chanchada, de quem assisti, no lobby do Sesc, a ‘Matar ou Correr’, projetado em DVD. Não sou muito fã de Fred Zinnemann, o acadêmico mais supervalorizado de Hollywood, e não curto o ‘Matar ou Morrer’, que os colegas críticos, há 50 e tantos anos, incensavam como western maduro, desacreditando a produção de John Ford e Anthony Mann, entre outros grandes. A tão decantada metáfora de Zinnemann e seu roteirista, Carl Foreman, sobre o macarthismo está lá, mas eu prefiro a de Nicholas Ray em ‘Johnny Guitar’. Por que estou falando em ‘Matar ou Morrer’? Porque Manga fez a versão paródica da ‘obra-prima’ de Zinnemann, dentro daquela estética de resistência que caracterizava a chanchada e a maioria da crítica via somente como complexo de inferioridade do brasileiro. Elogiei Manga no palco, destacando o que havia visto. Movimentos de câmera sofisticados, uma mise-en-scène baseada no ator e a mímica do Oscarito era uma coisa notável. Mais tarde, ao receber seu troféu, Manga foi homenageado pelas cantoras do rádio, que cantaram para ele ‘Estão Voltando as Flores’. Manga se emocionou, claro – quem não se emocionaria? -, mas ele foi lá, enquanto eu jantava, para me abraçar e dizer que minhas palavras o haviam tocado profundamente. No dia seguinte, ao colocar a marca de suas mãos na calçada da fama de Santos, ele fez questão que Guilherme de Almeida Prado e eu estivéssemos presentes. Já disse que minha lembrança mais perene de cinema brasileiro é uma chanchada da Atlântida. Não era um filme de Manga, mas de outro rei com coroa de lata, Watson Macedo. Não sei qual estreou primeiro, porque ‘Nem Sansão nem Dalila’, de Manga, é do mesmo ano, 1954, mas lembro até hoje de Violeta Ferraz com sua palavra de ordem – ‘O Petróleo É Nosso’, na chanchada de mesmo nome, que virou bandeira da campanha pela nacionalização do petróleo, no começo dos anos 50. Manga, no palco do Sesc, lembrou quando e como satirizou Getulio Vargas em sua paródia da fantasia bíblica de Cecil B. de Mille, ‘Sansão e Dalila’. Os críticos não viam e, se viam, minimizavam. Manga sobreviveu para ver suas paródias levadas a sério. Sérgio Augusto escreveu ‘Este Mundo É Um Pandeiro’ justamente para resgatar a produção da Atlântida. O estúdio fazia filmes de sucesso porque já tinha estrutura de distribuição, ao contrário da Vera Cruz, que não tinha – e o maior sucesso do estúdio de São Bernardo do Campo foi um filme que deu dinheiro para a distribuidora norte-americana Columbia. A Atlântida fazia um cinema ‘radiofônico’ como hoje a Total e a Lereby são acusadas de fazer cinema ‘televisivo’, mas dentro de 50 anos é possível que ‘Se Eu Fosse Você’ 1 e 2 sejam vistos como comentários sociais – válidos – sobre o Brasil nos primórdios dos anos 2000. Não estou provocando, só quero falar da minha emoção, e da do Manga, e da Maitê, anteontem à noite, em Santos.