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Cultura » Cuidado com a bengala!

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Luiz Carlos Merten

26 Agosto 2009 | 15h46

Quando falei no post anterior que achei ‘Arraste-me para o Inferno’ bem dirigido, estava justamente pensando, por se tratar de cinema de gênero, na armação do terror. Tem de haver um clima, claro, e não apenas isso. Sam Raimi usa sombras, música, décor e submete tudo isso a uma planificação – decupagem – minuciosamente preparada para provocar a reação do público. Legal! Confesso que esse tipo de mise-en-scène me interessa bastante. Afinal, no cinema, ‘tout est dans la mise-en-scène’, como dizia o grande crítico Michel Mourlet. Já vi umas três ou quatro vezes o trailer de ‘Premonição’. Estou falando do quarto filme da série, que deve estrear logo. Não gosto da série em si, mas não perco um episódio. O cinema, em geral, conta histórias de pessoas que escapam da morte. A série ‘Premonição’ é subversiva – o que interessa, nela, é mostrar as diferentes formas violentas como as pessoas podem morrer. O trailer do 4 repete a fórmula dos filmes anteriores. A premonição de alguém salva grupo de morrer num acidente, mas depois a morte vem buscar um por um. Cada morte é armada como se fosse um gag, ou um slapstick, aquele tipo de humor sofisticado que é construído plano a plano até a explosão do riso. Os grandes – Chaplin, Buster Keaton, Jacques Tati, Blake Edwards – fazem isso muito bem. As cenas de morte da série ‘Premonição’ são construídas com a mesma meticulosidade e o engenho dos diretores e roteiristas está todo nessa ‘armação’. Prestem atenção no trailer e depois vejam ‘Premonição 4’ para confirmar. Isso aqui é só preâmbulo para o que vem agora. Assisti ontem à noite, precedendo ‘Se Beber não Case!’, ao trailer de ‘Os Normais 2’. A plateia quase morria de rir só com as primeiras imagens. Acho que riam mais do que com o filme do Todd Phillips que foram ver. ‘Os Normais 2’ tem uma cena que não estava no roteiro de Alexandre Machado e Fernanda Young. É a cena da ‘bengala’. Pura escatologia do diretor José Alvarenga Jr., mas a cena também é um exercício de mise-en-scène, na medida em que foi inteiramente improvisada por ele. Acontece um quiprocó que leva Vani e Rui, Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, ao hospital. Ela põe a máscara de oxigênio e inicia uma ‘trip’. Sai meio grogue pelo interior do hospital e provoca uma sucessão de acidentes. Corta – antes disso, vimos esse cliente que veio consultar com o urologista, exame de próstata, e está com medo do toque anal. Toda a cena é construída para terminar com a bengala enterrada… Por mais escatológica que seja, a cena tem a precisão da qual depende. Quando a assisti, e na verdade não perguntei isso para Alvarenga, pensei em ‘Aconteceu Num Apartamento’, de um príncipe do humor, Richard Quine, roteiro de Blake Edwards. Será que Alvarenga viu ‘The Notorious Landlady’, com Jack Lemmon e Kim Novak? A cena se passa num hospital e também fornece uma sucessão de gags até que um sujeito todo engessado dispara numa cadeira de rodas. Ele desce uma rampa até dar de encontro numa parede ou árvore, não me lembro. quebra-se o gelo – e não tem gente dentro! aquilo é uma obra-prima de humor. Posso não achar a mesma coisa da ‘bengala erótica (ou assassina?)’ do Alvarenga, mas a engenhosidade da cena não pode passar em branco.