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Cultura » Criticando a crítica (4)

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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2006 | 13h12

Até hoje não sei se o livro da Ivana Bentes sobre estética versus cosmética da fome foi editado ou continua sendo o que chama de ‘work in progress’. Acho que a idéia, em si, foi interessante. Discutir a maneira como o cinema brasileiro atual se relaciona com o Cinema Novo é necessário, mas o conceito da ‘cosmética’ criou um paradigma meio complicado de aceitar. O ardor do debate surgiu em 2002, no bojo da consagração internacional de Cidade de Deus. Eu brigava com meu editor na época, Evaldo Mocarzel, porque ele criticava, não o filme do Fernando Meirelles, mas o curta que lhe serviu como laboratório, Palácio 2. No jornal, também era freqüente ouvir que Cidade de Deus não contextualizava a oposição asfalto/favela. Não contextualizava como, cara-pálida? Numa cena memorável, Zé Pequeno, o dono da Cidade de Deus, dá dinheiro ao branquelo junkie para que ele lhe compre roupas no shopping, este templo do consumo (e da classe dominante) no qual o poder de Zé Pequeno não representa nada, porque ele nem entra ali. Aquilo tem mais tratado de sociologia do que muito texto consagrado. Veio, mais recentemente, Marcelo Gomes, com Cinema, Aspirinas e Urubus, que reinventa a estética da fome (e é um filme maravilhoso), mas não é por gostar mais do filme do Marcelo que eu me sinto obrigado a detestar Eu Tu Eles, do Andrucha Waddington, que seria a mais pura cosmética da fome (é o que dizem). Um grande fotógrafo, que não era o Walter Carvalho, vou logo esclarecendo, me disse que tinha nojo daquelas imagens. Ai, meu Deus! Até hoje, sempre que encontro o Joel Pizzini brinco com ele – Tá chegando a hora, Joel. Em setembro de 2002, preciso pesquisar para saber o dia exato, nós, da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, promovemos no Espaço Unibanco, com apoio do Adhemar Oliveira, uma série de debates sobre o tema estética versus cosmética. Joel já havia começado, com Paloma Rocha, a obra gigantesca que é a restauração dos filmes de Glauber. O que cobro dele é o seguinte – no calor da discussão, estética versus cosmética virou um credo maniqueísta, Deus e o Diabo (na Terra do Sol). E o Joel disse que não sabia porque estávamos perdendo tempo a discutir Cidade de Deus. Em cinco anos, o filme estaria esquecido. Conto isso, não para denegrir o Joel Pizzini e ele sabe disso. Já conversamos sobre o assunto. O que importa é a discussão das idéias. O prazo está se esgotando. Passaram-se mais de quatro anos e eu não vejo jeito de relegar Cidade de Deus à vala comum do esquecimento. Daqui a um ano, vamos ver se a APCA retoma o velho debate. Vai ser interessante, com certeza.