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Criticando a crítica (3)

Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2006 | 13h11

Éramos dois gaúchos na mesa, ontem, em Brasília, para criticar a crítica – o Marcos, da revista Teorema, e eu. Só isso já teria dado um papo interessante, presumo. Comecei a escrever em Porto Alegre e desenvolvi extensa atividade, por mais de 20 anos, escrevendo em jornais do Sul. Parte dessa produção foi reunida num volume da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, na coleção Escritos de Cinema, criada para resgatar o pensamento cinematográfico gaúcho. Nem discuto se o que escrevia era bom ou ruim, até porque Porto Alegre tinha, na época, dois caras que eram feras, o mais feras que reconheço até hoje, Enéas de Souza e Jefferson Barros, mas foi lá que desenvolvi a minha visão do cinema e do papel do crítico. Quando cheguei em São Paulo, vim para o Estadão, em 1989. Já tinha 20 anos nas costas, mas aqui era desconhecido. Comecei de novo. Não precisei muito tempo para me tornar conhecido, escrevendo muito, como gosto de fazer. Hoje, o quadro mudou e existe até uma revista como a Teorema, que o Marcos e seus amigos, incluindo o crítico/realizador Fabiano de Souza, fazem em Porto, mas antes a gente podia dizer que, se o Brasil era um país colonizado, nós, gaúchos (e não apenas os gaúchos), ainda éramos colonizados pelo eixo Rio/São Paulo. Acho importante discutir a crítica fora do eixo. Vou fazer uma confissão. Anos atrás, e foi a única vez que fiz isso na vida, submeti um projeto de pesquisa à Bolsa Vitae. Queria pesquisar três críticos fundamentais, fazendo o link entre Antônio Moniz Vianna, no Rio; Walter da Silveira, na Bahia; e P.F. Gastal, em Porto Alegre. Ou não formatei direito ou o projeto foi considerado irrelevante, porque fui preterido. Gastal foi recuperado pela Coleção Escritos de Cinema, da Prefeitura de Porto Alegre. Moniz Vianna mereceu um volume de críticas organizado pelo Ruy Castro. Só falta recuperar o Walter da Silveira, cujo livro, Fronteiras do Cinema, num estilo totalmente não acadêmico, é um clássico. A visão ficou datada – imaginem: textos escritos nos anos 50 e início dos 60 –, mas a acuidade é tão grande que as análises continuam primorosas e o texto ‘Cinema, Instrumento do Humanismo’, é dos raríssimos que (re)leio, e com prazer. Me dêem o último volume do… (cála-te, boca) e eu declino. No quesito saudades do Brasil que pensa(va), eu também tenho meus preferidos.

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