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Cultura » Criticando a crítica (2)

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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2006 | 13h03

Não sei se alguém já pensou isso antes, mas eu sempre penso no Petrônio, aquele cara que, na Roma antiga, era chamado de árbitro da elegância, como o primeiro crítico. Depois, a função de criticar publicamente o governante ou o artista virou atribuição do bobo da corte, o único que ousava dizer as coisas. O crítico, tal como o conhecemos, surge basicamente com a consolidação da revolução industrial, no século 19, quando uma burguesia endinheirada, mas sem cultura, assumiu o poder. Antes, a aristocracia podia se dedicar ao ócio e adquirir, no berço, o conhecimento para apreciar a boa música, a boa literatura. Os novos ricos eram (são?) vulgares, sem verniz. Visconti sintetizou isso genialmente na cena da mesa em O Leopardo, quando a risada escandalosa de Angelica Sedara (Claudia Cardinale) provoca a reação irada da prima aristocrática de Tancredi (Alain Delon), que ama o rapaz. Isso é grande história. A crítica surgiu para fazer uma mediação e dotar de instrumental uma nova classe emergente que não possuía os códigos corretos para se comportar em sociedade. Hoje, a crítica faz parte da engrenagem da indústria cultural, principalmente a localizada nos meios de comunicação. O crítico tem essa fama de ditador. Antes, diziam que ele era frustrado e se compensava atacando escritores, músicos, cineastas, porque não sabia ou não conseguia fazer o que eles produziam. Seria ‘a inveja’ que o mobilizava. Esta bobagem, pelo menos, já foi superada historicamente. O crítico de cinema, que trabalha os códigos audiovisuais por meio da palavra, precisa ser um escritor de cinema, ou seja, precisa escrever bem (antes de tudo, tem de pensar, é verdade). Pouca gente raciocina, mas o crítico está sempre submetido à crítica. O diretor faz o filme que quer, ou pode, dadas as dificuldades que o exercício da realização impõe. Mas o crítico também é submetido à crítica do diretor do filme, do seu editor, do dono do jornal, do público. A função é muito mais vulnerável do que parece e isso é o que eu gostaria de ter discutido no painel em Brasília. A falta de autonomia, a limitação do espaço, o isso e aquilo são contingências da civilização da imagem, na qual estamos integrados, queiramos ou não. Li uma entrevista maravilhosa do Milton Hatoun na revista da Tam, no vôo de volta, em que ele fala justamente do reduzido público leitor como ‘a imensa minoria’. O público leitor quer informação generalizada; o cinéfilo é a imensa minoria à qual nos dirigimos, como críticos. O cara de Brasília, o Sérgio, presente no painel, tentou colocar isso. Antigamente, as ditaduras recorriam à censura para impedir a livre circulação de idéias. Hoje, as idéias circulam muito (jornal, revista, rádio, TV, internet) e o resultado da superinformação é que ela se dilui e as pessoas nunca foram tão alienadas e mal-informadas (é o lenga-lenga dos puristas, que você não se cansa de ouvir). Neste quadro, o cinema e a crítica mudaram, porque o próprio mundo mudou – ou você acha que naquele admirável mundo velho dos intelectuais que pensavam em profundidade um operário como Lula teria chegado a presidente? Chegava, é?